MENDELEY DESCOMPLICADO

   Uma das maiores preocupações da Comunidade Científica é provar a fundamentação teórica das suas pesquisas. Isso é importante por diversos motivos:
  • As ciências se preocupam com a reprodutividade dos seus achados. Essa reprodutividade nem sempre quer dizer que um experimento foi replicado integralmente, muitas vezes é um simples apoio em um experimento ou achado que sustenta a pesquisa. Por exemplo, ao testar um material metálico para condutividade elétrica, o pesquisador está reproduzindo testes anteriores que evidenciaram uma “nuvem eletrônica” nas ligas metálicas. Então, ao publicar o seu artigo, o pesquisador terá de, na fundamentação teórica do seu trabalho, referenciar todos os trabalhos anteriores que sustentaram seu novo achado.
  • Os pesquisadores querem que seu trabalho seja referenciado. Um trabalho bastante referenciado indica um trabalho relevante. Como não existe uma pessoa que fica sentada contando as referências de cada trabalho publicado no mundo, isso é feito pelos computadores e seus algoritmos. Se João publica um trabalho e Maria quer referenciar esta publicação no trabalho dela, é importante que a referência seja feita de forma que os algoritmos encontrem e faça a associação entre os dois trabalhos.

Observe que, ao pesquisar um trabalho no Google Acadêmico (aqui), é exibido o número de publicações que citam aquele trabalho. Essa contagem é realizada por algoritmos que correlacionam diferentes títulos.

  • A Comunidade Acadêmica precisa ter acesso aos trabalhos que fundamentam sua pesquisa. Por isso, as referências devem apresentar nome do pesquisador, título, onde foi publicado, data da publicação e outras coisas. Além de apreciar o seu trabalho, um pesquisador pode querer saber mais sobre o assunto ou contestar alguma pesquisa que fundamentou o seu trabalho. E não há nada de errado nisso! A Ciência é feita de contestações e verificações, isso dá credibilidade a ela.

   Como seria uma imensa bagunça se cada um fizesse sua referência do jeito que quisesse, surgiram diversos modelos. Cada local, com sua comunidade acadêmica, foi apresentando um novo modelo de referência. No Brasil, seguimos as regras da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), os EUA seguem a ANSI, Portugal tem o IPQ, e por aí vai… Obviamente que o pesquisador brasileiro pode ser referenciado pelo pesquisador estadunidense e esses dois serem referenciados pelo português. O que aconteceria se cada uma dessas normas técnicas dos diferentes países tivessem regras discordantes? A referenciação seria inútil em âmbito internacional. Para resolver isso, temos o ISO (Organização Internacional para Padronização): criada em 1947, reúne hoje 246 países. Toda norma internacional é mais geral, e cada país membro pode criar suas normas nacionais – que obedecem às normas da ISO – e as regiões dos países obedecem às normas nacionais respectivas. Por exemplo, nos EUA há diversos tipos de fazer uma referência bibliográfica, como MLA, Chicago e APA. O Brasil todo segue uma única norma, a NBR 6023, criada pela ABNT (você pode acessar essa norma aqui).

   Garantir que referências estejam adequadas não é de interesse apenas dos pesquisadores e das agências de regulamentação, as revistas também querem que essas referências sigam uma determinada norma. Quando você vai publicar, precisa escolher a revista científica e, no site dela deve conter as regras de publicação, que incluem o tipo de referência que deve ser feita. Pensando nisso, a Elsevier, uma grande fornecedora de jornais e revistas científicas, criou o Mendeley (aqui). O Mendeley é uma plataforma social para público acadêmico com diversas utilidades, dentre as quais, apresenta um serviço gratuito que ajuda a criar referências das mais diversas normas, facilitando o seu trabalho.
   O tutorial que segue abaixo ensina a criar uma conta no Mendeley, e o seguinte ensina a criar seu banco de referências. Vamos lá!

(mais…)

Ciência sem Fronteiras – Academic Training: dicas, sugestões, vivências…

  O programa Ciência sem Fronteiras foi, sem dúvida, um dos melhores momentos de minha vida pessoal e acadêmica… Mas vamos falar da parte acadêmica da coisa agora: além de aprimorar o meu inglês, cursar diversas disciplinas de meu interesse, desenvolver alguns projetos de pesquisa e fazer contatos com (futuros) pesquisadores de diversas áreas do mundo, tive o que posso chamar de minha primeira experiência profissional na área de Ciências Biológicas. Primeira experiência fora da universidade, retirando qualquer experiência de iniciação científica, que já tinha começado anos antes.
  Este post tem como objetivo mostrar a minha experiência e dar dicas de como conseguir aquele estágio dos sonhos. Apesar de dar dicas direcionadas para estudantes de Ciências Biológicas, algumas coisas são bem generalistas e podem ser aplicadas a outras áreas, principalmente este primeiro passo:

1. Como conseguir o estágio:
  O IIE (empresa americana que intermedeia a relação com a CAPES/CNPq e toma conta da gente enquanto estamos nos EUA) vai dar diversas dicas e webinars sobre como proceder, como escrever uma carta, e ELES VÃO TE ENVIAR UMA CARTA QUE PODE/DEVE SER ENVIADA JUNTO COM O SEU CURRÍCULO. Não vou postar uma cópia desta carta, pois eles mesmos pedem para que não publiquemos e pode ser que essa carta mude. A carta vem explicando o que é o CsF, quem é o IIE e diz que o IIE irá arcar com os custos de vistos e documentação do período do estágio, pois somos J-1.
  Os custos com visto e documentações para que um J-1 trabalhe legalmente é o principal problema que estudantes estrangeiros com esse tipo de visto enfrentam na hora de pedir um estágio de verão (esse é um dos motivos de algumas empresas exporem que só aceitam candidatos residentes legais). Se por um lado, essa carta facilita, por outro, ela traz um problema: ela diz que a gente receberá uma ajuda de custo (a bola trimensal) e, assim, é possível que te ofereçam um cargo voluntário pois “ah, esse cara já vai receber a grana do IIE, e eu ainda vou pagar mais pra ele?”… Isso aconteceu com dois amigos meus.
  A melhor hora para começar a procurar estágio é agora: nenhum amigo meu ficou sem estágio (apenas uma amiga teve o estágio rejeitado em cima da hora porque tinha contato com pacientes hospitalares, mas ela preferiu não procurar outro e retornar ao Brasil antes). Porém, sempre há essa possibilidade, então adiante-se! Dos 473 e-mails que eu enviei (eu guardei todos em uma pasta no gmail para me organizar), recebi dois SIM, poucos NÃO e diversos SEM RESPOSTA. Na verdade, mesmo depois de conseguir o meu estágio, ainda recebia alguns NÃO muito antigos.

  • Envie e-mails diretos, se apresentando, explicando sucintamente o que é o CsF e que você procura uma oportunidade de estágio de verão. Diga por que você quer essa vaga e quais a suas qualificações.
  • Se você já leu sobre o pesquisador/empresa (por exemplo, já leu os artigos dele e conhece a linha de pesquisa), cite isso. Mas não invente que sabe o que você não sabe.
  • Crie uma planilha Excel com os dados de todos os contatos para quem você enviou e-mail: nome, empresa/universidade/instituição, data, área, observações gerais e “resposta”. Isso é muito importante: quando eu consegui o meu estágio, eu havia enviado um e-mail para um pesquisador chamado Rafael Lamaitre, o qual encaminhou o meu e-mail para um colega. Quem respondeu o meu e-mail foi o Chad Walter. É muito comum essa troca de e-mails entre os pesquisadores, e alguns não nos informam.
  • Procure nas universidades! Pesquise por pesquisadores da sua universidade, procure saber qual a linha de pesquisa dos seus professores, pergunte a colegas que já fizeram estágio!
  • Crie o seu currículo de acordo com o modelo do IIE, mas faça pequenas alterações.
  • Sempre responda os e-mails, mesmo que receba um NÃO. Diga que está muito agradecido e peça para que repasse para outros contatos que saiba que podem ter interesse em te contratar.
  Claro que é importante que você procure estágio na área que você pretende atuar, porém, lembre-se que o programa tem três estágios e, apesar de o Academic Training não ser obrigatório na prática, ele é bastante importante para o seu currículo. Considere procurar áreas similares – poucos colegas meus fizeram estágio precisamente na área de pesquisa que atuavam no Brasil.

2. Lugares que eu sonhei em conseguir estágio:
  Eu estava morando em Indiana, cidade de Bloomington. Tinha viajado para Chicago e, como me apaixonei pela cidade, decidi que queria fazer o Academic Training lá. Enviei e-mail para TODOS os pesquisadores dos museus, principalmente do Field Museum. Só faltei pedir vaga de porteiro ou lustrador de móveis “mas, por favor, me deixa trabalhar no Field!”.
♥Pesquisadores do Field Museum (página geral): aqui.
♦Coleção de Invertebrados: aqui.
♣Coleção de Moluscos (pesquise pelos revisores da revista Malacologia): aqui.
  Depois houve uma feira de ciências na Indiana University, e anotei o contato de todos os pesquisadores que me interessavam. Enviei e-mails e um deles me respondeu e disse que tinha vaga. Ele também respondeu uma amiga minha, nos concedeu a vaga para trabalhar no verão mas, um mês depois, ele mudou de ideia e preferiu contratar alguém que permanecesse no estágio por mais tempo.
♠Pesquisadores da Indiana University: aqui.
  Não se espante se não conseguir encontrar o contato de professores de algumas universidades. Elas simplesmente não dispõem os dados para o público externo, como acontece com algumas universidades de Chicago.
  Outra forma de encontrar oportunidades é a mesma forma como fazemos para encontrar qualquer coisa na Internet: Google. Pesquise por “summer internship biology” ou troque biology por sua área de interesse. Altere a pesquisa, procure por uma região, ou paid. Algumas oportunidades vão pedir inscrições no site, ou até que você envie documentação por correio. Olhe esse site (aqui), por exemplo.
3. Meu estágio:
  Como disse, consegui o estágio em Washington através do contato com outra pessoa, e esse foi o estágio que escolhi. Mas, uma semana antes, eu tinha conseguido um estágio no Texas, em San Antonio. Por isso eu digo que procurar em outras universidades é tão importante. Procure saber com outros amigos do CsF que estão em outras universidades.
  Trabalhar no Smithsonian foi uma experiência incrível! Eu estava no principal museu dos Estados Unidos, onde holótipos do mundo inteiro estão depositados (diversos do Brasil!), além de ter acesso a todos os museus a qualquer momento com a minha carteirinha. Se eu quisesse, poderia chegar no museu com horas de antecedência e visitar qualquer área sem todo aquele movimento de pessoas. Além disso, eu estava vivendo em Washington D.C., estava visitando a Casa Branca e outros diversos monumentos e museus, saindo para passear no Washington Memorial de tardinha, indo pro estágio de bike compartilhada… Foram quatro meses de alegria.
☼Smithsonian Institution: aqui.
☼Smithsonian Marine Station at Fort Pierce, FL: here.
☼Pesquise outras instituições do Smithsonian. Por exemplo, se você faz algo na área de engenharia, procure o Museu Aéreo-Espacial. Se você for da área de Indústria Criativa (e.g. Design), há diversos museus de arte onde você tem chance de trabalhar. O que há por trás desses museus, além da área de visitação, é inimaginável!
  Além de todas essas vantagens de morar em “Dí Cí” e trabalhar no Smithsonian (e o alto custo, claro), você tem a oportunidade de conhecer mais de 17 museus (eu fui em 17, e ainda teve alguns que não consegui visitar) e participar de eventos científicos e sociais do National Museum of Natural History (NMNH, comece a falar essa sigla logo). Palestras sobre pesquisas desenvolvidas lá dentro, ou de pesquisadores convidados e visitantes (você vai conhecer brasileiro de todo canto do BR, pois sempre tem alguém indo lá para fazer parte da pesquisa), visitas a áreas internas do museu toda semana (as vezes, duas na semana), cafezinhos, e Happy Hour toda sexta de tarde (com cerveja a dois dólares haha).
Salão do National Museum of Natural History. http://www.historictours.com/washington/pictures-photos.php
Ele nunca está vazio assim no verão.
  Outra coisa: você vai ter que escolher um lugar para morar. A Howard é uma universidade muito bem localizada na cidade, porém a Catholic University of America (CUA) é a que, apesar do nome, oferece mais liberdade (como poder beber em casa). Pesquise, pois há outras universidades mais próximas do NMNH. Eu não aconselho a solicitar meal plan, pois você não terá tempo de ir almoçar. O importante é analisar cada caso e oferta.

4. O que exatamente eu fiz:
  Não se engane. Dificilmente você fará um estágio com algum projeto que produza algo publicável em uma revista científica, principalmente no NMNH. A maioria dos trabalhos lá são de curadoria e auxílio a operações do museu. Eu, por exemplo, fiz uma reorganização de toda a coleção de tipo de lâminas de crustáceos (essa coleção não fica no NMNH, mas em um local em Maryland, mas há um ônibus gratuito que faz a linha para o local, não é longe), e também fiz pequenos reparos na coleção de moluscos e equinodermos. Aprendi a usar o EMU (principal programa de catalogação de museus, muito usado em museus dos EUA, Europa e Austrália) e pude catalogar diversos lotes que recebíamos.
  Não realizei nenhum trabalho específico de taxonomia. Todavia, aproveitei que estava no NMNH e tive acesso a alguns espécimens de gêneros e famílias que trabalhei enquanto estava no Brasil. Também dediquei algum tempo para fazer favores a amigos no Brasil, como tirar fotos de tipos para projetos de pesquisa. Essa é, sem dúvidas, uma experiência que pesará em qualquer banca avaliativa que eu possa participar na área de zoologia.

  O período do estágio de verão é como um mini-CsF. Você tem a chance de se mudar, de trabalhar na área de seu interesse ou até de ser convidado por um pesquisador que você conhece bem. Então não desperdice. Use aquele precioso tempo em que você termina todos os seus homeworks para procurar. Eu sempre preferi trabalhar durante a noite, então tirava uma ou duas horas nos dias de semana para dar uma olhadinha nas oportunidades e enviar e-mails. Aproveite também o momento entre os dois semestres acadêmicos, já que você não estará preocupado com nada além da matrícula.
  Muitas oportunidades só são lançadas no mês de março, pois alguns professores nem têm ainda previsão de o que farão durante o verão: um pesquisador da Indiana University me disse para procurá-lo em abril, pois com certeza teria um cargo para mim, mas eu não queria confiar na sorte, já que já tinha havido uma desistência recente. Confirmei o meu estágio em meados de fevereiro.
  É importante que você siga os passos do IIE, envie toda a documentação o quanto antes, pois há uma obvia enrolação quando muitas pessoas conseguem estágio nos meses de abril e maio. Quanto antes você completar a survey, antes você vai receber o seu auxílio financeiro.
Boa sorte!      

Especial Smithsonian: Evolução Humana

  O que faz dos humanos tão… Humanos? Como, segundo a Teoria da Evolução, nós chegamos ao que somos hoje: uma espécie com diferentes organizações e de tamanha complexidade? A exposição “Evolução Humana” do Museu Natural de História Natural Smithsonian foi uma das atrações que mais me chamou a atenção durante minha perambulações no horário de estágio. A exposição une abordagem biológica e antropológica – há um departamento de antropologia no Centro de Suporte ao Museu.
  Atualmente, temos duas correntes sobre a evolução humana, a Hipótese de Origem Única (alguns artigos em inglês vão abordar como RAO, Recent African Origin), e a Evolução Multirregional. Não ficou muito claro, para mim, qual das duas hipóteses a exposição defende, nem se uma posição é tomada. A diferença entre essas duas hipóteses é que a Hipótese de Origem Única defende a existência de um Homo sapiens arcaico, isto é, uma população teria dado origem a atual espécie de Homo sapiens. A Hipótese Multirregional defende que havia Homo por todo canto, e através de um intercruzamento, simultaneamente, a atual espécie Homo sapiens ocorreu.
  A primeira hipótese data das décadas de 80 e 90. A segunda hipótese é considerada pela maioria dos atuais pesquisadores como mais aceita, e conta com dados moleculares e fósseis que suportam as suas premissas.
  Duas partes da exposição são a comparação dos Homo sapiens (sapiens) e outras espécies, inlcuindo uma vasta coleção de réplicas de fósseis de hominídeos, e as mudanças anatômicas que ocorreram durante a nossa história evolutiva.
  Escolhi preservar a identidade da exposição pois entendo que, por ser única e muito bem estruturada, nenhuma imagem iria representar a experiência da visitação. Apenas posto as imagens do acervo de exposição pública que acho de extrema importância, os quais não encontrei imagens melhores na Internet.

Uma hipótese evolutiva humana. As interrogações mostram grandes
“vazios-fósseis” ou conflitos de hipóteses,
bioteaching.com/human-evolution-australopithecus/

  A nossa história evolutiva tem origem, claro, com um ancestral que deu origem ao gênero Homo. Até o momento, eu não tinha conhecimento do gênero Paranthropus, que é um grupo “meio-irmão” do gênero Homo. A relação dos dois grupos ainda não é muito clara, alguns estudos mostram um relação molecular mais próxima entre Homo e Australopithecus, mas a relação anatômica é mais evidente entre Homo e Paranthropus (também, em relação a hábitos alimentares).
  Em 2010, um fóssil encontrado na África do Sul resolveu este problema. A nova espécie A. sediba passou a ser o ancestral dos hominídeos. “Sediba” significa “fonte” na língua soto do sul, um idioma original desse país. O artigo que descreve esta nova espécie pode ser acessado aqui ou aqui (Science 9 April 2010: Vol. 328 no. 5975 pp. 195-204; DOI: 10.1126/science.1184944). Estou evitando explicar em minúscias o porquê da importância desta espécie, pois exigiria uma grande explicação sobre crânios, arco zigomático, estrutura da cintura, e termos tão técnicos que entraria na discussão sobre a veridicidade desse dado fóssil: a grande questão não é, na verdade, sobre o A. sediba, mas sobre quem é o ancestral dele. Alguns pesquisadores defendem que A . afarensis deu origem a A. africanus e a linhagem de Homo (como mostra a imagem na esquerda, portanto A. sediba seria “irmão” de A. africanus, e outros pesquisadores dizem que A. afarensis deu origem a A. africanus apenas (a linhagem de Homo teria vindo de dentro de A. africanus, e eu não sei onde que encaixariam A. sediba nessa história).
  Repito, A. sediba como ancestral ou grupo-irmão do gênero Homo ainda é suportada pela maioria dos pesquisadores.
  Abaixo estão algumas imagens comparativas do A. africanus e de espécies do gênero Homo.

Observe as semelhanças entre A. africaus e A. sediba: rosto curvo e grandes aberturas oculares.
(1) foto de exemplar exposto no museu; (2) http://www.zmescience.com/tag/australopithecus-sediba/

  Na esquerda, um A. africanus, na direita um A. sediba. Observe que ambos possuem uma face curva e aberturas dos olhos muito grandes em relação ao tamanho do crânio. Não é possível ter uma noção muito boa, mas o crânio de A. africnaus tem uma capacidade volumétrica pequena – o crânio de A. sediba não está completo, esta informação é imprecisa no caso.
  Agora observe o crânio de Homo rudolfensis, um dos basais do gênero. A face é menos curva, mas ainda é prolongada. A abertura dos olhos é levemente reduzida e o volume do crânio aumenta.

Crânio de H. rudolfensis exposto ao público.

  Por fim, o crânio de H. sapiens. Pode-se ter uma ideia de que a abertura do olho seja maior em relação ao comprimento da face, mas observe como a face é reduzida, seguindo a linha da testa. O volume craniano aumenta consideravelmente.

Crânio de Homo sapiens em exposição.

Todas essas características ficam melhor evidenciadas quando colocamos todos os crânios lado a lado.

http://silenced.co/origins/
(A) Pan troglodytes, chimpanzé moderno; (B) Australopithecus africanus; (C) Australopithecus africanus; (D) Homo habilis; (E) Homo habilis; (F) Homo rudolfensis; (G) Homo erectus; (H) Homo ergaster (primitivo H. erectus); (I) Homo heidelbergensis, “Homem de Rhodesia”; (J) Homo sapiens neanderthalensis; (K) Homo sapiens neanderthalensis; (L) Homo sapiens neanderthalensis; (M) Homo sapiens sapiens, 30.000 anos; (N) Homo sapiens sapiens moderno.

  O crescimento do crânio aparentemente trouxe uma vantagem: possuir um cérebro maior e, portanto, mais desenvolvido. Todavia, temos que lembrar que certos outros animais, incluindo mamíferos, possuem crânios muito maiores do que os humanos, e sua capacidade cognitiva não se desenvolveu a tal ponto – estou tentando não fazer uma coisa antropocêntrica e dizer que “humanos são o ápice da evolução”. O crescimento do volume craniano também trouxe a necessidade de uma nutrição diferenciada, exigindo novos hábitos alimentares e sociais, e também outras mudanças anatômicas:
  Laços sociais: a formação de grupos favorecia a probabilidade de sobrevivência. Nossos ancestrais se reuniam em grupos para compartilhar comida, ferramentas e abrigo. Éramos grupos essencialmente nômades, e sabemos disso através de correlações químicas, por exemplo, de ferramentas encontradas em um ponto geográfico e minerais encontrados há alguns quilômetros de distância.
  Nossas ferramentas vinham dos mais criativos materiais. Poderíamos usar um pedaço de mandíbula de um animal morto, pedras lascadas, ou paus, ou pedras que eram aquecidas em fogueiras (afinal, já dominávamos o fogo).
  O nosso desenvolvimento também se alterou. As crianças nasciam com o crânio relativamente reduzido (lembre que a cirurgia cesariana é algo relativamente recente). Analisando por exemplo, a quantidade de camadas de esmalte dos dentes de alguns fósseis e de crianças atuais, cientistas conseguiram definir que as taxas de crescimento não foram alteradas.




 Com o passar do tempo, nossas relações sociais foram se aprimorando. Desenvolvemos novos métodos de organização, novas estruturas sociais, regras. Os meios de comunicação e transporte diminuiu barreiras entre as comunidades. Preservamos muitos dos hábitos pré-históricos ainda hoje.
  A pesquisadora Susanne Shultz (então de Oxford, mas hoje trabalha na Universidade de Manchester, aqui) utilizou métodos estatísiticos para mostrar como a alteração de hábito de vida noturno para diúrno foi favorecido pela manutenção da vida social na evolução humana. Talvez um suporte para essa hipótese de Susanne seria a redução da abertura do olho como foi dito anteriormente: ao longo da evolução humana, essa abertura no crânio foi sendo reduzida, e animais noturnos tendem a possuir uma abertura maior, que possibilite a entrada da escassa luz noturna.

  Maior cérebro: o aumento do crânio também permitiu que o cérebro fosse maior. Um maior cérebro, intuitivamente, deve possibilitar um melhor desenvolvimento cognitivo, mas isso não é regra. A questão aqui é mais sobre “como o cérebro se desenvolve” ao longo da vida. Sabemos que o cérebro de muitos mamíferos crescem rapidamente durante o desenvolvimento embrionário até o momento do nascimento, depois ele diminui as taxas de crescimento. Já os humanos têm uma taxa acelerada de crescimento cerebral antes do nascimento e essa taxa continua durante a infância.

Na horizontal, acompanhe o crescimento da massa corporal. Na vertical, acompanhe o crescimento da massa do cérebro. Vermelho é chimpanzé, azul é humano. Enquanto o cérebro de chimpanzés reduzem o crescimento após o nascimento (“newborn”), o cérebro humano continua crescimento durante a infância.
http://10e.devbio.com/article.php?ch=2&id=8

  Algo interessante sobre o cérebro humano é a ocorrência de dobraduras do córtex (parte externa). Até pouco tempo, achava-se que “mais dobraduras possibilitavam mais conexões entre neurônios, chamadas sinapses”, porém, os cientistas brasileiros Suzana Herculano-Houzel e Bruno Mota mostraram que esta anatomia deve-se apenas a fatores físicos e disponibilidade de área dentro do crânio (artigo deles aqui, entrevista ao Ciência Hoje aqui).
  Um fator que colaborou com o crescimento do tamanho do cérebro foi a variação de temperatura. Analisando a relação entre as variações de temperatura de uma área com as dimensões de crânios encontrados ali, foi possível inferir que, durante altas variações climáticas, o cérebro humano aumentou consideravelmente a sua capacidade volumétrica.

Acima, variação de temperatura. Abaixo, volume de caixa craniana. Observe as duas medidas em relação ao período de tempo no eixo horizontal.
Imagem de exposição do museu, retirado do site oficial. humanorigins.si.edu/human-characteristics/brains

  Anatomia: as mudanças anatômicas foram importantes principalmente na postura ereta, bipedalismo e deixarmos de subir em árvores. Uma das principais mudanças foi como são feitas a articulação entre a coxa e a pélvis, e a articulação do joelho. Essa nova articulação faz com que a base de sustentação de localize no centro de gravidade do corpo, não fazendo mais necessário o uso das mãos para se sustentar.

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142006000300023
  Outro ponto importante é que a ligação entre a coluna vertebral e o crânio deveria mudar. Pense que um animal que tenha a coluna na horizontal deve ter uma ligação vértebra-crânio na porção posterior da cabeça (assim ele olha para a frente). Se esse animal passa a ter uma coluna vertical, a ligação agora deve ser na porção inferior da cabeça, ou então ele ficará olhando pra cima.
  Essa ligação se chama “forame magnum” ou buraco occipital. Observe a imagem abaixo.
Observe que o Forame Magnum do chimpanzé se localiza mais atrás do que o dos humanos. Na direita, uma situação intermediária.
http://roberto-furnari.blogspot.com/2015/05/evolucao-humana-parte-3-primeiros.html

  Para mais informações sobre a galeria de origens humanas do Smithsonian, visite o site oficial: http://humanorigins.si.edu/

Fora da Biologia: SP Invisível.

  Entre cada mil coisas que encontramos no Facebook, há uma que nos chama a atenção. SP Invisível é um projeto que tomou três ou quatro horas de minha madrugada hoje. E é uma página tão antiga que não sei como eu ainda não tinha visto, e como apenas dez amigos meus a curte.

Página SP Invisível no Facebook. Link: https://www.facebook.com/spinvisivel
Vinícius e André no programa Encontro
com Fátima Bernardes. Fonte.
  Segundo a página, o objetivo é “despertar um olhar mais humano”. SP Invisível é um projeto de dois estudantes universitários, Vinícius Lima (de Jornalismo) e André Soler (de Cinema), que visa expor as histórias de pessoas das ruas. Não necessariamente moradores de rua, mas também flanelinhas, camelôs, guardadores de carros, garotas de programa, etc. A página não para de crescer e as atualizações são constantes – considerando o trabalho que dá fazer cada uma das postagens -, porém, segundos os criadores, o sonho deles é que um dia a página não exista mais.
  Li diversas entrevistas (a maioria do Vinícius) e, para minha surpresa, eles estiveram em um dos meus programas televisivos favoritos, o Encontro com Fátima Bernardes (veja o vídeo no link da imagem ao lado). Segundo os criadores, há uma relação em que ambos saem ganhando: eles aprendem lições de vida e humildade, as pessoas das ruas ganham vozes e passam a ser percebidas. E nós, leitores, ganhamos muito mais.
  Não quero quebrar a mágica de ler cada um dos depoimentos, mas quero reproduzir uma postagem da página que me emocionou bastante: a história de Pedro Henrique.
“Meu nome é Pedro Henrique, tenho 33 anos, a idade de Cristo, e vim pra rua porque cresci sem pai e sem mãe, viajei o Brasil todo e quando cheguei em São Paulo não tive onde ficar. 
O que mais marcou foi quando eu morei no Rio, lá eu aprendi a filmar, filmei muito campeonato de skate e de surf. Desde então, é só ‘sorria, você está sendo filmado’ e ‘corta pra mim, Percival’. Hoje a câmera é minha paixão.
Moro na rua há quase 20 anos, vim bem novo do Rio pra cá. Essa câmera me acompanha aqui, ganhei ela lá no Leblon, um cara ia jogar fora e eu peguei pra mim. 
A câmera não funciona, mas ela me ajuda a ser feliz, eu fico o dia todo aqui brincando e esqueço todos os meus problemas, inclusive minha perna que tá quebrada porque caí da árvore. Eu não nasci pra ser triste, faço de tudo pra ser feliz, mesmo morando na rua.”
Novamente, não deixe visitar a página. Seguem os links:
  “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome” (Caetano Veloso)

ATUALIZAÇÃO:
  Matéria no site da BBC: link.
  Há uma página semelhante sobre pessoas randômicas na cidade de Nova Iorque, o Humans of New York. Aqui.