Uma castanheira no caminho

  Imagine uma cidade do interior da Bahia onde uma figura que é histórica e, ao mesmo tempo, símbolo ambiental corre perigo de ser derrubada. É o que acontece na cidade de Valença – BA (272km de Salvador): uma castanheira-do-Pará (Bertholletia excelsa) de aproximadamente 400 anos está plantada em um local de declive, no quintal de um cidadão. A árvore possui mais de 50 metros de altura, ainda produz frutos, mas a estrutura do tronco se encontra comprometida.

  Ninguém sabe ao certo como a árvore foi parar em Valença. A castanheira-do-Pará tem uma ocorrência entre o Maranhão, Guianas, Bolívia e leste do Peru. Como a castanheira tem, em média, 400 anos, foi trazida por volta de 1600. Acontece que Cairú só começou a ser povoada de fato por Portugueses por volta de 1608, e Valença ainda era um distrito subordinado a Cairu até o fim do Século XVIII. Como essa castanheira foi trazida será um mistério eterno pois não deve haver registro histórico dessa ação. Sabemos que esta é a única castanheira-do-Pará em área urbana no Nordeste, mas que, infelizmente, não pertence a este bioma.
Biomas Brasileiros. Fonte.
  A castanheira-do-Pará é nativa do bioma Amazonia, já Valença está inserida no bioma de Mata Atlântica – os dois biomas estão separados pela Caatinga e pelo Cerrado e, apesar de serem aparentemente semelhantes, possuem muitas peculiaridades quanto à suas biodiversidades. A introdução de espécies não nativas é um grande problema mundial: o transporte e o descarte de espécimes entre diferentes áreas do mundo (o Brasil possui uma dimensão continental, lembre-se disso) leva à instalação de espécies que não possuem competidores, predadores e que se sobrepõem a espécies nativas chegando a causar extinção de parte da diversidade local – essas espécies são chamadas BIOINVASORAS. A castaheira-do-Pará, nesse caso, não representa uma bioinvasão: ela simplesmente não está adequada ao seu habitat. Na Amazonia, a castanheira-do-Pará possui relações ecológicas com aves, insetos e mamíferos que polinizam suas flores e dispersam os seus frutos, e isso não ocorre em Valença, afinal, esta é a única castanheira-do-Pará em toda a área. O esforço de manter a árvore em pé seria manter “um estranho no ninho”, uma espécie que não pertence àquele espaço e que, apesar do seu fator histórico, não possui relações ecológicas com o ambiente ao seu redor.
  Outra questão de grande importância e que levantou debates na cidade é o perigo para os moradores. Os frutos da árvore, ao caírem de uma altura de 50m, quebram telhados de casas e podem causar acidentes graves. Além disso, o perigo de queda da árvore, seja por forte chuva, seja por raios ou seja pela fragilidade do seu tronco, pode abalar a estrutura de todas residências ao redor. Alguns moradores já não dormem nas suas casas por medo de desabamento.
Toda a parte central do tronco se encontra comprometida.
  Após todo o processo midiático e de ação ambientalista, a empresa Bioconsultoria Ambiental Ltda. emitiu um laudo favorável à derrubada da árvore (o relatório, diga-se de passagem, bem elaborado, pode ser acessado aqui). Ainda após o laudo, muitos cidadãos valencenses lutaram por uma segunda opinião, exigindo um segundo laudo, emitido por outra empresa e também por medidas alternativas ao corte da árvore:

O estudo que completará um ano, foi realizado em 27 de Julho e 28 de Agosto de 2015 pela empresa Bioconsultora Ambiental … e seguiu os critérios de “utilização da metodologia Tree Risk Assessment Qualification – TRAQ, desenvolvida pela Sociedade Internacional de Arboricultura – ISA (sigla em inglês), como um conjunto de técnicas que visam promover a segurança das pessoas e dos patrimônios públicos e privados, através de uma abordagem sistemática e padronizados de avaliação do risco de árvores.” (p. 4), que constatou o risco MODERADO de queda. (p.48)
Porém, como aponta o relatório, também na página 48, houve LIMITAÇÃO na avaliação da extensão do apodrecimento do cerne – anat.bot parte interna do tronco das árvores -, além de sugerir que “Para um melhor conhecimento da extensão da lesão verificada e maior clareza sobre a gravidade da mesma, é sugerida a vistoria na parte superior da árvore por arborista treinado em escalada de árvores, e a avaliação da lesão por tomógrafo sônico e tomógrafo de resistência elétrica, o que permitiria uma melhor compreensão da situação fitossanitária da árvore.”
Óbvio que essa recomendação não invalida o resultado do relatório, mas pode apontar uma saída sem que haja a derrubada da árvore! Conhecendo o estado fitossanitário da castanheira é possível encontrar métodos para tratar a parte do tronco afetada por fungos e umidade… é justamente por isso que brigamos e procuramos entender através de novo laudo.
Existem BRECHAS no laudo da castanheira (p.49) e se derrubarem sem as precauções prévias estarão cometendo um CRIME! É sugerido: “Poda dos galhos inferiores que se projetam para baixo em direção sudeste sobre as residências e que apresentam risco residual PEQUENO”; “Poda de limpeza e conformação visando equilibrar o peso e distribuição da copa, através da remoção de epífitas, cipós, trepadeiras, e galhos mortos ou de maiores dimensões, que apresenta risco residual MODERADO”. (p.49).

Portal “Combate Racismo Ambiental” por Jefferson Duarte Brandão. Fonte.
  Por fim, há poucas semanas, o Ministério Público decidiu definitivamente pela derrubada da castanheira-do-Pará (aqui):

Medidas prévias de resgate da fauna e da flora e para elaboração de um plano de arborização, como forma de compensação ambiental, serão promovidas pelo Município de Valença após assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) perante o Ministério Público estadual.  O TAC, de iniciativa da promotora de Justiça Lívia Sampaio Pereira, foi firmado na segunda-feira (25) após laudos técnicos terem comprovado o risco provável de queda de uma árvore, com alto impacto e severas consequências à população, inclusive, com possível perda de vidas humanas. O Município deverá promover o corte da castanha-do-pará nos próximos 15 dias.
No documento, o Município se compromete a plantar, pelo menos, 726 árvores de espécies nativas da Mata Atlântica e 10 castanheiras-do-pará.  Também foi definido que o Município deverá destinar socialmente os produtos da árvore, com concursos de trabalhos artísticos de madeira e memorial em praça homenageando a castanheira, considerando seu valor histórico, cultural e paisagístico. O descumprimento de quaisquer das obrigações assumidas implicará em multa para o Município. ​

  Bem, não entendo a motivação da plantação de 10 mudas de castanheiras-do-Pará, o que, ao meu ver, seria recorrer ao mesmo erro e arriscar a introdução de espécies não-nativas enquanto temos tantas espécies endêmicas em perigo de extinção. Por outro lado, é louvável a obrigação de plantar 726 árvores de espécies nativas de Mata Atlântica. O corte da árvore deverá ocorrer nesta semana e é um processo longo já que não se pode simplemente “tombar” uma árvore deste porte.
  Uma certeza é que a castanheira-do-Pará ficará como um marco histórico na cidade de Valença.

Jornal do Codema – CONSELHO MINUCIPAL DE DEFESA DO MEIO AMBIENTE DE VALENÇA – n.27

Atualizações sobre o Rio Doce: relatórios e GTs de estudo de impacto ambiental e outras novidades.

  Meses após o Desastre de Mariana, o andamento das questões jurídicas ainda é lento: nem mesmo a questão da interrupção dos vazamentos (aqui) foi resolvida, pois a Samarco entende que não há mais vazamentos (aqui), visto que há barreiras construídas para conter esses vazamentos remanescentes. As questões sociais andam em passos um pouco mais adiantados, porém, nada satisfatórios (aqui), ainda muito devido ao fato de não haver uma atividade alternativa para as populações que viviam do extrativismo animal na área, principalmente pescadores. Na intersecção do social e do ambiental, o abastecimento de água potável ainda é prejudicado em algumas localidades, mas apresenta melhoras graduais (aqui).
  A empresa tem aumentado o seu efetivo de trabalho e pretende retomar as atividades no final de 2016 (aqui). Compartilho a opinião de que reerguer a Samarco é importante no sentido desta empresa possuir saldo financeiro suficiente para realizar as atividades de mitigação de impactos ambiental e social causados pelo desastre. Acredito ainda que, com o episódio, seja possível uma nova fase na atividade de mineração.
  Os estudos de impactos ambientais, por outro lado, se apresentam muito mais adiantados. Diferente das ações de reparo social, essas ações não dependem unicamente da Samarco e da pressão de órgãos públicos. Há uma participações organizadas de pesquisadores e da própria população local que fazem levantamentos quase que diários dessas áreas e realizam atividades criativas de mitigação do impacto.
  A Marinha (MB) liberou recentemente um relatório (que estava sob sigilo por algum tempo) indicando impactos na foz do Rio Doce (aqui). Embora a mídia tenha feito um pequeno alarde sobre o fato das informações terem sido mantidas em sigilo, não há grande anormalidade nessa questão: a MB já havia noticiado que enviaria embarcações para auxiliar trabalhos de órgãos ambientais.

  Acontece que, devido à Lei de Acesso à Informação, esses dados não deveriam estar sob sigilo. Por isso a MB emitiu uma nova nota recentemente:

  Mas, de fato, não faz diferença se esses dados brutos estão ou não sob sigilo visto que já haviam sido liberados pelos órgãos ambientais nos seus relatórios.
  Diretamente quanto às novidades de impacto ambiental, a GIAIA (Grupo Independente para Avaliação do Impacto Ambiental) tem sido a maior responsável pela liberação de relatórios mais completos e melhor analisados sobre a evolução do caso (aqui). Além de toda transparência quanto aos materiais coletados, relatórios emitidos e gastos financeiros da organização, eles reúnem os relatórios próprios e de outros órgãos em uma página de livre e fácil acesso (aqui).
  O Pilula fez um vídeo no seu canal (abaixo) com um ótimo resumo desses relatórios.

 O principal impacto que Pilula aborda é a expansão da mancha causada pela lama. Os mapas de acompanhamento da evolução dessas manchas pode ser acompanhado aqui.

Desastre no Rio Doce.

  Talvez o mais grave acidente ambiental do Brasil está ocorrendo e nenhuma medida emergencial está sendo tomada. A situação está sendo tratada com naturalidade.
  No dia 5 de novembro de 2015, duas barragens do reservatório de de rejeitos de uma mineradora romperam. A mineradora é a Samarco, pertencente à Vale e à BHP (uma empresa anglo-australiana), e as barragens se encontravam na cidade de Mariana, no estado de Minas Gerais. Uma semana depois do desastre, ainda não foram apuradas as causas nem todas as consequências socioambientais, mas já sabemos que nunca houve cenário semelhante com mesma proporção no mundo.
  A USP detectou, próximo ao momento do rompimento das barragens, quatro abalos sísmicos (grau de magnitude 2.55). De fato, é duvidoso que duas barragens tenham se rompido simultaneamente devido unicamente a problemas na estrutura, porém, é de se esperar que, mesmo no Brasil, construam-se barragens que sustentem-se perante tremores imprevistos. Imprudência ou não, apenas relatórios de inspeção e conferimento com diretrizes nacionais e internacionais podem afirmar, mas as consequências são inegáveis.
  A primeira consequência foi a destruição do distrito de Bento Rodrigues. As imagens de satélite da Digital Globe First Look mostram como foi devastador o banho de lama que a região recebeu.

 

 

  A primeira coisa a se reparar na imagem é que, nas anteriores ao desastre, o rio possuía uma cor fina, enquanto nas posteriores a cor é totalmente lamacenta: obviamente não há dissolução dessa quantidade de lama na água. Foram despejamos 62 milhões de metros cúbicos, ou seja, 62.000.000.000 de litros de lama. Depois observe que as linhas tênues agora são traços grossos: a lama não escoa, ela se acumula pelo caminho.
  Toda a população (612 habitantes) do distrito teve de ser removida a tempo. Inicialmente, os refugiados foram levados a abrigos improvisados pelos órgão públicos, porém, as pessoas que não tinham para onde ir estão sendo alocadas em hotéis da região. Isto não resolve o problema. O patrimônio dessas pessoas que não tinham muito, agora é zero. Isso sem mencionar a quantidade de pessoas desaparecidas e mortas, pois as equipes de resgate não conseguiram cobrir toda a região em tempo hábil.
  A Samarco foi multada em 250 milhões de reais pelo IBAMA. Para uma empresa que lucrou quase 3 bilhões no ano de 2014 (aqui), este valor é irrisório… Mas a Samarco pertence à Vale e à BHP!!! A Lei 6.938/1981 (aqui) define

“Art 14 – Sem prejuízo das penalidades definidas pela legislação federal, estadual e municipal, o não cumprimento das medidas necessárias à preservação ou correção dos inconvenientes e danos causados pela degradação da qualidade ambiental sujeitará os transgressores:

(…)

§ 1º – Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo, é o poluidor obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade. O Ministério Público da União e dos Estados terá legitimidade para propor ação de responsabilidade civil e criminal, por danos causados ao meio ambiente.

(…)”

  Este é o princípio Poluidor-Pagador da Legislação Brasileira. A BHP e Vale são igualmente responsáveis.

“Quando houver pluralidade de autores, a responsabilidade pela reparação do bem ambiental lesado será de todos aqueles que contribuíram para o dano ambiental (responsabilidade solidária).O “quantum” que cada um deverá pagar será proporcional a respectiva contribuição para a degradação  do meio ambiente.” fonte.

  Mas a vida não é tão simples e nenhuma empresa quer dividir a conta no final da festa… Segundo diversos jornais, a BHP enviou uma carta ao Wall Street Journal informando que a Samarco é única responsável pelo desastre. A carta deveria ser acessada neste link (aqui), cujo URL diz “dam burst costs could break 1 billion analyst says” (lembra dos 250 milhões de reais?), mas a assinatura do jornal é requerida para ter acesso. Não encontrei qualquer informação de carta aberta da BHP a mídia brasileira, e, no seu website consta a seguinte informação:

“A BHP Billiton e a Vale ofereceram apoio à Samarco em estabelecer um fundo de emergência para apoio comunitário e trabalhos de reconstrução. Nossa intenção é trabalhar com as autoridades para garantir que esse fundo esteja operacional o quanto antes possível. 

Minimizar o impacto ambiental deste acidente também é uma prioridade e um Plano de Recuperação Ambiental será desenvolvido pela Samarco com o apoio de um perito externo.” fonte.

  Além dos efeitos sociais diretos, este evento está causando problemas no abastecimento de água de diversas cidades pelo trajeto do Rio Doce. As informações sobre a composição da lama são conflitantes: alguns grupos dizem que a toxicidade é baixa, porém outros afirmam que foram encontradas quantidades de metais pesados muito além do tolerado.
  A prefeitura de Governador Valadares, uma cidade que teve que interromper o abastecimento de água e desligar a Usina de Baguari, informou que um estudo realizado pela SAAE – Estação de Tratamento Central do Serviço Autônomo de Água e Esgoto – encontrou ferro, manganês, cromo e alumínio em proporções milhares de vezes acima do tratável (aqui).

Relatório de estudo realizado pela SAAE de Governador Valadares. Fonte.

  Apesar de alguns grupos ainda afirmarem que há presença de arsênio e mercúrio na água contaminada, não consegui encontrar qualquer relatório que comprove tal informação. Segundo as Normas Brasileiras Regulamentadoras, a lama do reservatório é classificadas como não-tóxica e inerte (NBR 100004/2004 – ABNT). Todavia, tais quantidades de manganês, cromo e alumínio já apresentam risco à saúde, além de que os relatórios apresentados pela SAAE mostram claramente que os níveis de metais no rio estão acima do recomendado para uso doméstico da água.

  Populações podem ser movidas, casas podem ser reerguidas, água potável e eletricidade podem ser transportadas de outros locais não atingidos, porém a biodiversidade é intransferível e irrecuperável.
  A quantidade de peixes mortos ao longo do Rio Doce é incontável. Por onde a lama passa, há um rastro de biodiversidade arrasada: Peixes e macroinvertebrados morrerão por sufocamento e ingestão da lama, e, em seguida, faltará recursos alimentar e hídrico para animais terrestres. Talvez alguns microinvertebrados, principalmente a meiofauna, sobreviverá na condição de anóxia se a lama não alterar significativamente o solo e se não durar muito tempo.
  Se a lama chegar ao Estado do Espírito Santo e desaguar no mar, toda vida marinha da região estará comprometida. Apesar do mar ter uma provável capacidade de diluir a lama, o sedimento será letal aos corais – o sedimento deve soterrá-los, impedindo a alimentação. Com os corais mortos, toda uma cadeia trófica estará comprometida e deverá se extinguir.
  O município de Regência é o último no percurso do Rio Doce, ou seja, se encontra na desembocadura. Há uma barragem no local que, se não for retirada a tempo, poderá inundar a cidade quando a lama chegar. Essa barragem, porém, é um local de reprodução de tartaruga-gigante (Dermochelys coriacea) e mantida pelo Projeto Tamar (aqui). Recentemente, o local foi reconhecido por manter uma enorme biodiversidade marinha, inclusive de fêmeas dessa tartaruga.
  A desova de D. coriacea no local ocorre entre outubro e dezembro (aqui), ou seja, a costa do Espírito Santo deve estar repleta de populações da tartaruga.

  A OAB, em parceria com gestores ambientais, recomendou à Samarco o estudo do desvio do fluxo de lama para a Cratera de Aimorés, no estado de MG. A provável saída para não atingir o ambiente marinho, a princípio, é viável e custoso. Não há nenhuma resposta da Samarco quanto a avaliação da proposta. (aqui)
  Outra medida de mitigação dos danos ambientais é a retirada de peixes do local para uma posterior recuperação do ambiente (aqui). A proposta é introduzir os peixes em outros ambientes como lagoas e represas, mas não há nenhum estudo modelando o ambiente após uma brusca alteração na comunidade – quantidade de peixes a serem transportados, estudo de habitat, recursos alimentares, competição com outras espécies e condições para reprodução são fatores muito importantes a serem considerados em uma proposta como essa.

  A postergação de ações pelos órgãos responsáveis (Samarco, Vale e BHP) magnifica os efeitos ambientais e sociais do desastre: usinas serão desligadas, cidades interromperão abastecimento de água, biodiversidade será perdida.
  A Internet é um grande meio de transparência de ações. Infelizmente, a totalidade das ações que são divulgadas são oriundas de órgãos não diretamente envolvidos no acidente: OAB, engenheiros ambientais, ONGs e MP. Às empresas envolvidas, até o momento, coube apenas discutir a responsabilidade.

Reprodução Facebook. Autor desconhecido.

Bioinvasão e Parasitismo: Melanoides tuberculata.

malaj5O primeiro pensamento comum que as pessoas têm ao ouvir falar de caracol deve ser escargots ou aqueles grandes caramujo-gigante-africanos. O Melanoides tuberculata adulto tem entre 2 e 2,7 centímetros, mas, em algumas populações, podem chegar a ter entre 3 e 3,7. A variação morfológica da espécie é registrada também na coloração das conchas, como mostra a imagem ao lado. A estrutura populacional varia bastante de trabalho para trabalho.
O M. tuberculata é nativo do norte da África e sul da Ásia, mas já se encontra introduzido pela América. Não raramente, há novos registros de ocorrência. É indiscutível a sua capacidade de colonizar áreas antropizadas e com matéria orgânica abundante.

A introdução no Brasil ocorreu no final da década de 60, e há evidências de que foi proposital. Como este molusco reproduz rapidamente e pode atingir populações muito numerosas, seria um competidor por recursos naturais contra outros moluscos nativos que transmitem doença, como o Biomphalaria. A medida parece ser plausível, contudo, estudos mais recentes mostram que o M. tuberculata também pode ser hospedeiro intermediário de diversas doenças exóticas, principalmente para peixes e aves. A medida não foi feita exclusivamente no Brasil. Este trabalho mostra que o mesmo foi feito em Santa Lúcia (ilhas caribenhas) e com sucesso. Diversos outros trabalhos mostram o sucesso desta medida ambiental.

Os estudos sobre a transmissão de doenças pelo M. tuberculata não chegaram definir exatamente qual parasito é transmitido, focam-se na taxonomia do verme em grandes grupos ou apenas na forma de carcária ou rédia.
Para esclarecer: há um grupo de vermes da subclasse Digenea que evoluiu com moluscos de água doce em um grande exemplo de parasitismo. Estes vermes atualmente são classificados como trematódeos (classe Trematoda). O exemplo mais comum de Digenea é Schistosoma mansoni, causador da esquistossomose ou “barriga d’água”. O grupo Digenea é marcado pela necessidade de mais de um hospedeiro para completar o seu ciclo de vida, que inclui diversas fases e formas.
De acordo com Pechenik (2014), o ciclo inicia-se com um ovo fertilizado e liberado no ambiente que dará origem a um miracídio, larva sem intestino e nadante. A larva miracídio entrará em contato com um molusco – normalmente um gastrópode de água doce – e poderá ser ingerido ou alojar-se abaixo de sua concha. Esta relação é específica, ou seja, a larva procura uma determinada espécie de molusco, havendo preferências. O estágio seguinte é atingido por desdiferenciação, chama-se esporocisto-mãe e abriga-se no sistema circulatório do hospedeiro intermediário.
O esporocisto-mãe produzirá embriões que serão esporocisto-filhas ou rédias, a depender da espécie de Digenea estudada (o estágio de rédia tem capacidade de alimentação ativa e não está presente em todos ciclos de vida), e migrará para o sistema digestivo ou gônadas do molusco. Uma nova desdiferenciação ocorrerá e o estágio seguinte é chamado cercária.
Cercárias geralmente são nadantes livres e podem invadir o hospedeiro definitivo ativamente. Como o hospedeiro definitivo é pouco específico, algumas cercárias mantêm-se no hospedeiro intermediário como metacercárias e aguardam até que sejam ingeridos por um predador.
A imagem abaixo mostra diferentes fases do ciclo de um Digenea.

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Grande parte dos trabalhos feitos sobre trematodes associados a M. tuberculata é brasileira. Um trabalho de Bogéa et. al (2005) identifica cercárias da família Heterophyidae. A taxonomia dos parasitos foi feita a partir da análise morfológica e da quetotaxia – análise de receptores sensoriais. O mesmo trabalho mostra como taxas de indivíduos infestados varia entre corpos d’água.
Um outro trabalho, de Pinto & Melo (2010) identifica larvas da mesma família em M. tuberculata na Lagoa da Pampulha. Este trabalho conseguiu atingir o nível taxonômico de espécie e definir o parasito como Centrocestus formosanus graças ao estudo de todo o ciclo de vida. Isto foi possível com a infestação de peixes e ratos (hospeiro definitivo) em laboratório. A mesma espécie de trematódeo foi descrita em pelo menos sete localidades pelo mundo (Brasil, Venezuela, Colômbia, Laos, Taiwan e Hong Kong) com hospedeiros definitivos diferentes (dois gêneros de rato, galo, ave do gênero Nycticorax, etc.); Definitivamente, este é um hospedeiro de baixíssima especificidade com hospedeiro definitivo.
A baixa especificidade com hospedeiro é preocupante porque não descarta humanos de serem infestados, principalmente quando grandes corpos d’água são reservatórios de gastrópodes infestados – Pinto & Melo (2010) coletaram 3.834 espécimens de M. tuberculata e identificaram 7,0% deles como infestados.
Não encontrei trabalhos que identifiquem Schistosoma mansoni neste molusco em particular, mas acredito que, como há alta especificidade de hospedeiro intermediário, isto seja improvável.

 

Outras informações:

Apesar de diversos trabalhos descreverem o animal como Melanoides tuberculatus, está errado. O gênero foi descrito em 1804 por Olivier. Link1. Link2.
Há dois nomes usuais em inglês para este gastrópode: “Red-rimmed” e “Malaysian Trumpet”.
O motivo de tamanha variação morfológica não é esclarecida: pode haver diversos morfotipos em uma mesma população. Provavelmente a cor da concha não é uma característica tão seletiva neste caso.
Além do problema de saúde pública e animal, o M. tuberculata pode ser uma peste para vegetação aquática nativa. Atualmente, estudos estão avançando no uso deste animal como bioindicador de poluição de corpos d’água.

Referências:
BOGÉA, T.; CORDEIRO, F.M. & GOUVEIA, J.S. – Melanoides tuberculatus (Gastropoda: Thiaridae) as intermediate host of Heterophyidae (Trematoda: Digenea) in Rio de Janeiro metropolitan area, Brazil. Rev. Inst. Med. trop. S. Paulo, 47(2):87-90, 2005.
PINTO, H.A. & MELO, A.L. – Melanoides tuberculata (Mollusca: Thiaridae) as an intermediate host of Centrocestus formosanus (Trematoda: Heterophyidae) in Brazil. Re. Inst. Med. Trop. Sao Paulo, 52(4): 207-10, 2010.
ROCHA-MIRANDA, F. & MARTINS-SILVA, M.J. – Fisrt record of the invasive snail Melanoides tuberculatus (Gastropoda: Prosobranchia: Thiaridae) in the Paranã River Basin, GO, Brazil. Braz. J. Biol., 66(4): 1109-1115, 2006.

 

Alguns trabalhos relevantes:
Scholz, T. et al. – Trematodes of the family Heterophyidae (Digenea) in Mexico: a
review of species and new host and geographical records. Journal of Natural History, 2001, 35, no. 12, 1733–1772. Link.
Universidade Nacional de Singapura – Departamento de Ciências Ambientais – Link.