Mais um Titanossauro no Brasil

download

Três pesquisadores mineiros e um do Rio Grande do Sul lançaram recentemente um artigo (aqui), no qual descrevem um jovem titanossauro no Brasil. O fóssil foi encontrado no município de Uberaba (MG), mais precisamente ao longo da BR 050 (km 153,5), em 1991 e estava depositado no Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price (CPPLIP, aqui). A formação é do Cretáceo Superior, ou seja, entre 100 milhões e 65 milhões de anos atrás, quando os dinossauros dominavam a Terra, os mamíferos (não-placentários) estavam surgindo e os continentes já começavam a se separar.

Até o momento, titanossauro é o grupo de dinossauro com mais espécies descritas para o Brasil, são dez no total – sendo três dessas encontradas na mesma região, em Uberaba. Os autores não chegaram a identificar qual a espécie do titanossauro que eles encontraram, pois não encontraram o esqueleto completo, nem mesmo grande parte dos ossos: a identificação foi feita com dois centrum de vertebra dorsal e três caudais, parte de um ílio direito e parte de um ísquio também direito. Parece pouca coisa se pensarmos na quantidade de ossos que um dinossauro desse tamanho tem, mas muito do trabalho dos paleontólogos é feito assim mesmo.

O paleontólogo precisa conhecer a anatomia do animal que ele pesquisa muito a fundo. Por exemplo, o centrum é apenas uma parte da vértebra, o disco mais grosso na parte inferior da vertebra, como você pode observar abaixo:

sauropod
Anatomia da vértebra de um Titanossauro.

Analisando os fragmentos das vértebras, do ílio e do ísquio, os paleontólogos podem chegar a uma identificação aproximada do fóssil encontrado. Ao longo da evolução dos vertebrados, desde os peixes primitivos até todos os animais atuais, houve muita modificação na estrutura dos ossos, e, graças a essas modificações, os pesquisadores conseguem identificar os grandes grupos.

vet
Variação de vértebras desde peixes ancestrais até grupos terrestres. Nós, humanos, e os dinossauros estamos dentro daquele último grupo, os amniotas.

Agora observe também que há variação na morfologia de vértebras entre animais de um mesmo grupo. Na imagem abaixo, à esquerda, a vértebra de um humano e, na direita, de um cachorro.

F1.large
Variação da anatomia de vértebra dentro de um grande grupo.

Porém, a identificação do fóssil sequer é a maior dificuldade enfrentada pelos paleontólogos. O local onde os fragmentos foram encontrados hoje não existe mais, foi destruído com a expansão da BR 050, o que impede a pesquisa por novos achados.

O trabalho de campo de um paleontólogo é árduo: ao sair em uma expedição, dificilmente o pesquisador irá identificar os achados em campo, normalmente tudo é catalogado e os fósseis são trazidos para um laboratório ou museu, onde são depositados e posteriormente são identificados. Este exemplar, por exemplo, foi encontrado em 1991 e só terminou de ser identificado em 2017. O trabalho de identificação conta com uma consulta árdua a livros, artigos e também de comparação com outros espécimes já identificados e depositados em museus. Por isso a identificação do fóssil pode demorar anos, décadas ou até século desde seu achado.

Os fósseis normalmente são encontrados em locais com rochas preservadas, mesmo lugar que são explorados por atividade mineradora ou construção de vias. Acontece que há pouca ou nenhuma fiscalização nessas áreas e muitas vezes os fósseis são levados junto com os minérios. Em 2006, foram encontrados estromatólitos – sinais deixados por bactérias – no piso de um shopping em São Paulo (aqui). Em 2016, foram encontrados fósseis em um muro de Recife, porém isso é mais comum do que é de fato noticiado: em Salvador, há locais já conhecidos por conter fósseis em na sua estrutura.

12745736_10153473080687099_6345166633672913234_n
Fóssil encontrado em muro na Zona Norte de Recife

Não falta legislação sobre o tombamento destes espaços. Na página da Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP), há uma reunião da Legislação vigente sobre fósseis, sua extração e preservação (aqui). O que muitos pesquisadores argumentam é a ausência de aplicação da Lei, fiscalização das atividades e rigorosidade no processo de licenciamento ambiental.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s