Uma castanheira no caminho

  Imagine uma cidade do interior da Bahia onde uma figura que é histórica e, ao mesmo tempo, símbolo ambiental corre perigo de ser derrubada. É o que acontece na cidade de Valença – BA (272km de Salvador): uma castanheira-do-Pará (Bertholletia excelsa) de aproximadamente 400 anos está plantada em um local de declive, no quintal de um cidadão. A árvore possui mais de 50 metros de altura, ainda produz frutos, mas a estrutura do tronco se encontra comprometida.

  Ninguém sabe ao certo como a árvore foi parar em Valença. A castanheira-do-Pará tem uma ocorrência entre o Maranhão, Guianas, Bolívia e leste do Peru. Como a castanheira tem, em média, 400 anos, foi trazida por volta de 1600. Acontece que Cairú só começou a ser povoada de fato por Portugueses por volta de 1608, e Valença ainda era um distrito subordinado a Cairu até o fim do Século XVIII. Como essa castanheira foi trazida será um mistério eterno pois não deve haver registro histórico dessa ação. Sabemos que esta é a única castanheira-do-Pará em área urbana no Nordeste, mas que, infelizmente, não pertence a este bioma.
Biomas Brasileiros. Fonte.
  A castanheira-do-Pará é nativa do bioma Amazonia, já Valença está inserida no bioma de Mata Atlântica – os dois biomas estão separados pela Caatinga e pelo Cerrado e, apesar de serem aparentemente semelhantes, possuem muitas peculiaridades quanto à suas biodiversidades. A introdução de espécies não nativas é um grande problema mundial: o transporte e o descarte de espécimes entre diferentes áreas do mundo (o Brasil possui uma dimensão continental, lembre-se disso) leva à instalação de espécies que não possuem competidores, predadores e que se sobrepõem a espécies nativas chegando a causar extinção de parte da diversidade local – essas espécies são chamadas BIOINVASORAS. A castaheira-do-Pará, nesse caso, não representa uma bioinvasão: ela simplesmente não está adequada ao seu habitat. Na Amazonia, a castanheira-do-Pará possui relações ecológicas com aves, insetos e mamíferos que polinizam suas flores e dispersam os seus frutos, e isso não ocorre em Valença, afinal, esta é a única castanheira-do-Pará em toda a área. O esforço de manter a árvore em pé seria manter “um estranho no ninho”, uma espécie que não pertence àquele espaço e que, apesar do seu fator histórico, não possui relações ecológicas com o ambiente ao seu redor.
  Outra questão de grande importância e que levantou debates na cidade é o perigo para os moradores. Os frutos da árvore, ao caírem de uma altura de 50m, quebram telhados de casas e podem causar acidentes graves. Além disso, o perigo de queda da árvore, seja por forte chuva, seja por raios ou seja pela fragilidade do seu tronco, pode abalar a estrutura de todas residências ao redor. Alguns moradores já não dormem nas suas casas por medo de desabamento.
Toda a parte central do tronco se encontra comprometida.
  Após todo o processo midiático e de ação ambientalista, a empresa Bioconsultoria Ambiental Ltda. emitiu um laudo favorável à derrubada da árvore (o relatório, diga-se de passagem, bem elaborado, pode ser acessado aqui). Ainda após o laudo, muitos cidadãos valencenses lutaram por uma segunda opinião, exigindo um segundo laudo, emitido por outra empresa e também por medidas alternativas ao corte da árvore:

O estudo que completará um ano, foi realizado em 27 de Julho e 28 de Agosto de 2015 pela empresa Bioconsultora Ambiental … e seguiu os critérios de “utilização da metodologia Tree Risk Assessment Qualification – TRAQ, desenvolvida pela Sociedade Internacional de Arboricultura – ISA (sigla em inglês), como um conjunto de técnicas que visam promover a segurança das pessoas e dos patrimônios públicos e privados, através de uma abordagem sistemática e padronizados de avaliação do risco de árvores.” (p. 4), que constatou o risco MODERADO de queda. (p.48)
Porém, como aponta o relatório, também na página 48, houve LIMITAÇÃO na avaliação da extensão do apodrecimento do cerne – anat.bot parte interna do tronco das árvores -, além de sugerir que “Para um melhor conhecimento da extensão da lesão verificada e maior clareza sobre a gravidade da mesma, é sugerida a vistoria na parte superior da árvore por arborista treinado em escalada de árvores, e a avaliação da lesão por tomógrafo sônico e tomógrafo de resistência elétrica, o que permitiria uma melhor compreensão da situação fitossanitária da árvore.”
Óbvio que essa recomendação não invalida o resultado do relatório, mas pode apontar uma saída sem que haja a derrubada da árvore! Conhecendo o estado fitossanitário da castanheira é possível encontrar métodos para tratar a parte do tronco afetada por fungos e umidade… é justamente por isso que brigamos e procuramos entender através de novo laudo.
Existem BRECHAS no laudo da castanheira (p.49) e se derrubarem sem as precauções prévias estarão cometendo um CRIME! É sugerido: “Poda dos galhos inferiores que se projetam para baixo em direção sudeste sobre as residências e que apresentam risco residual PEQUENO”; “Poda de limpeza e conformação visando equilibrar o peso e distribuição da copa, através da remoção de epífitas, cipós, trepadeiras, e galhos mortos ou de maiores dimensões, que apresenta risco residual MODERADO”. (p.49).

Portal “Combate Racismo Ambiental” por Jefferson Duarte Brandão. Fonte.
  Por fim, há poucas semanas, o Ministério Público decidiu definitivamente pela derrubada da castanheira-do-Pará (aqui):

Medidas prévias de resgate da fauna e da flora e para elaboração de um plano de arborização, como forma de compensação ambiental, serão promovidas pelo Município de Valença após assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) perante o Ministério Público estadual.  O TAC, de iniciativa da promotora de Justiça Lívia Sampaio Pereira, foi firmado na segunda-feira (25) após laudos técnicos terem comprovado o risco provável de queda de uma árvore, com alto impacto e severas consequências à população, inclusive, com possível perda de vidas humanas. O Município deverá promover o corte da castanha-do-pará nos próximos 15 dias.
No documento, o Município se compromete a plantar, pelo menos, 726 árvores de espécies nativas da Mata Atlântica e 10 castanheiras-do-pará.  Também foi definido que o Município deverá destinar socialmente os produtos da árvore, com concursos de trabalhos artísticos de madeira e memorial em praça homenageando a castanheira, considerando seu valor histórico, cultural e paisagístico. O descumprimento de quaisquer das obrigações assumidas implicará em multa para o Município. ​

  Bem, não entendo a motivação da plantação de 10 mudas de castanheiras-do-Pará, o que, ao meu ver, seria recorrer ao mesmo erro e arriscar a introdução de espécies não-nativas enquanto temos tantas espécies endêmicas em perigo de extinção. Por outro lado, é louvável a obrigação de plantar 726 árvores de espécies nativas de Mata Atlântica. O corte da árvore deverá ocorrer nesta semana e é um processo longo já que não se pode simplemente “tombar” uma árvore deste porte.
  Uma certeza é que a castanheira-do-Pará ficará como um marco histórico na cidade de Valença.

Jornal do Codema – CONSELHO MINUCIPAL DE DEFESA DO MEIO AMBIENTE DE VALENÇA – n.27
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