Índios Amazônicos Resistentes a Antibióticos.

  Semana passada, a AAAS (Assiciação Americana para Avanço da Ciência) publicou uma matéria sobre uma comunidade índios na Floresta Amazônica que são resistentes a antibióticos (aqui). A matéria é uma síntese do trabalho de Maria Dominguez-Bello, da New York University (School of Medicine): os seus estudos focam em como a evolução de vertebrados influencia na seleção da respectiva microbiota. Além dos índios da Floresta Amazônica na Venezuela, ela estuda outras comunidades isoladas da cultura ocidental na África subsahariana.
  O estudo teve início com a descoberta desta comunidade em 2008 e a coleta de dados antes de que um contato maior com a cultura ocidental ocorresse. Entre os resultados, os índios apresentam uma diversa microbiota, “incluindo grandes quantidades de Prevotella, Helicobacter, Oxalobacter, e Spirochaeta, que são ausentes ou significantemente reduzidas em humanos de cultura industrial.” A diversidade bacteriana no intestino desses índios é relacionada a saúde deles: há fortes indícios de que a relação de mutualismo entre as nossas bactérias e nós nos traz como benefício a prevenção de doenças, e que a diversidade da microbiota presente em populações urbanas é significativamente menor do que a encontrada em populações rurais. A imagem abaixo é de um estudo feito por De Flippo et al. (2010) com microbiota de crianças crianças de Burkina Faso (A) e italianas (B).

Variação de microbiota de crianças de Burkina Faso (A) e Itália (B). De Flippor et al. (2010) atribui essa mudança a fatores ambientais uma vez que a varianção durante o período de amamentação é insignificante.

  Um segundo estudo, dessa vez feito por Gautam Dantas, da Washington University, mapeou genes das microbiota coletada. Os resultados foram intrigantes: como a comunidade da Floresta Amazônica tem um cultura de subsistência (hunter-gatherers seriam “caçadores e coletores”) e isolada, eles não tiveram contato com animais que são criados com alimentação que inclui antibióticos (sim, muitos pecuaristas utilizam antibióticos na comida que é fornecida aos animais), tampouco tiveram cuidados médicos baseados em antibióticos. Por isso, é de se esperar que a microbiota não tenha desenvolvido resistência aos antibióticos sintéticos modernos. O que Gautam Dantas descobriu foi que essas bactérias possuem sessenta genes que estão relacionados com a resistência a antibióticos – desses, seis são relacionados a antibióticos sintéticos.
  O que parece ser apenas uma coincidência pode mostrar que talvez estejamos errados ou exagerando sobre a existência se super-bactérias. Acredita-se que a resistência a antibióticos sintéticos leva muito tempo para ocorrer, e necessita do uso indiscriminado de medicamentos por grande número de pessoas. Uma hipótese levantada por Gautam Dantas é que essas bactérias desenvolveram resistência a antibióticos encontrados no ambiente em que vivem (no solo, por exemplo) e que são semelhantes em estrutura molecular aos antibióticos sintéticos modernos. Esse estudo, obviamente, não nos alivia para o uso indiscriminado de remédios antibióticos sem prescrição médica e em doses adequadas, pois a seleção das bactérias ainda é uma ideia cientificamente aceita.
  Outro estudo do mesmo autor encontrou bactérias no solo do ártico canadense que apresentam resistência a antibióticos atuais.

Referências:
   De Filippo, C., Cavalieri, D., Di Paola, M., Ramazzotti, M., Poullet, J. B., Massart, S., et al. (2010). Impact of diet in shaping gut microbiota revealed by a comparative study in children from Europe and rural Africa. Proceedings of the National Academy of Sciences, 107(33), 14691-14696. doi: 10.1073/pnas.1005963107.
   Perron, G. G., L. G. Whyte, P. J. Turnbaugh, W. P. Hanage, G. Dantas, and M. M. Desai. 2015. Functional characterization of genes isolated from ancient permafrost soil exposes resistance to modern antibiotics. PLoS One, doi: 10.1371/journal.pone.0069533.

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