Especial Smithsonian: Evolução Humana

  O que faz dos humanos tão… Humanos? Como, segundo a Teoria da Evolução, nós chegamos ao que somos hoje: uma espécie com diferentes organizações e de tamanha complexidade? A exposição “Evolução Humana” do Museu Natural de História Natural Smithsonian foi uma das atrações que mais me chamou a atenção durante minha perambulações no horário de estágio. A exposição une abordagem biológica e antropológica – há um departamento de antropologia no Centro de Suporte ao Museu.
  Atualmente, temos duas correntes sobre a evolução humana, a Hipótese de Origem Única (alguns artigos em inglês vão abordar como RAO, Recent African Origin), e a Evolução Multirregional. Não ficou muito claro, para mim, qual das duas hipóteses a exposição defende, nem se uma posição é tomada. A diferença entre essas duas hipóteses é que a Hipótese de Origem Única defende a existência de um Homo sapiens arcaico, isto é, uma população teria dado origem a atual espécie de Homo sapiens. A Hipótese Multirregional defende que havia Homo por todo canto, e através de um intercruzamento, simultaneamente, a atual espécie Homo sapiens ocorreu.
  A primeira hipótese data das décadas de 80 e 90. A segunda hipótese é considerada pela maioria dos atuais pesquisadores como mais aceita, e conta com dados moleculares e fósseis que suportam as suas premissas.
  Duas partes da exposição são a comparação dos Homo sapiens (sapiens) e outras espécies, inlcuindo uma vasta coleção de réplicas de fósseis de hominídeos, e as mudanças anatômicas que ocorreram durante a nossa história evolutiva.
  Escolhi preservar a identidade da exposição pois entendo que, por ser única e muito bem estruturada, nenhuma imagem iria representar a experiência da visitação. Apenas posto as imagens do acervo de exposição pública que acho de extrema importância, os quais não encontrei imagens melhores na Internet.

Uma hipótese evolutiva humana. As interrogações mostram grandes
“vazios-fósseis” ou conflitos de hipóteses,
bioteaching.com/human-evolution-australopithecus/

  A nossa história evolutiva tem origem, claro, com um ancestral que deu origem ao gênero Homo. Até o momento, eu não tinha conhecimento do gênero Paranthropus, que é um grupo “meio-irmão” do gênero Homo. A relação dos dois grupos ainda não é muito clara, alguns estudos mostram um relação molecular mais próxima entre Homo e Australopithecus, mas a relação anatômica é mais evidente entre Homo e Paranthropus (também, em relação a hábitos alimentares).
  Em 2010, um fóssil encontrado na África do Sul resolveu este problema. A nova espécie A. sediba passou a ser o ancestral dos hominídeos. “Sediba” significa “fonte” na língua soto do sul, um idioma original desse país. O artigo que descreve esta nova espécie pode ser acessado aqui ou aqui (Science 9 April 2010: Vol. 328 no. 5975 pp. 195-204; DOI: 10.1126/science.1184944). Estou evitando explicar em minúscias o porquê da importância desta espécie, pois exigiria uma grande explicação sobre crânios, arco zigomático, estrutura da cintura, e termos tão técnicos que entraria na discussão sobre a veridicidade desse dado fóssil: a grande questão não é, na verdade, sobre o A. sediba, mas sobre quem é o ancestral dele. Alguns pesquisadores defendem que A . afarensis deu origem a A. africanus e a linhagem de Homo (como mostra a imagem na esquerda, portanto A. sediba seria “irmão” de A. africanus, e outros pesquisadores dizem que A. afarensis deu origem a A. africanus apenas (a linhagem de Homo teria vindo de dentro de A. africanus, e eu não sei onde que encaixariam A. sediba nessa história).
  Repito, A. sediba como ancestral ou grupo-irmão do gênero Homo ainda é suportada pela maioria dos pesquisadores.
  Abaixo estão algumas imagens comparativas do A. africanus e de espécies do gênero Homo.

Observe as semelhanças entre A. africaus e A. sediba: rosto curvo e grandes aberturas oculares.
(1) foto de exemplar exposto no museu; (2) http://www.zmescience.com/tag/australopithecus-sediba/

  Na esquerda, um A. africanus, na direita um A. sediba. Observe que ambos possuem uma face curva e aberturas dos olhos muito grandes em relação ao tamanho do crânio. Não é possível ter uma noção muito boa, mas o crânio de A. africnaus tem uma capacidade volumétrica pequena – o crânio de A. sediba não está completo, esta informação é imprecisa no caso.
  Agora observe o crânio de Homo rudolfensis, um dos basais do gênero. A face é menos curva, mas ainda é prolongada. A abertura dos olhos é levemente reduzida e o volume do crânio aumenta.

Crânio de H. rudolfensis exposto ao público.

  Por fim, o crânio de H. sapiens. Pode-se ter uma ideia de que a abertura do olho seja maior em relação ao comprimento da face, mas observe como a face é reduzida, seguindo a linha da testa. O volume craniano aumenta consideravelmente.

Crânio de Homo sapiens em exposição.

Todas essas características ficam melhor evidenciadas quando colocamos todos os crânios lado a lado.

http://silenced.co/origins/
(A) Pan troglodytes, chimpanzé moderno; (B) Australopithecus africanus; (C) Australopithecus africanus; (D) Homo habilis; (E) Homo habilis; (F) Homo rudolfensis; (G) Homo erectus; (H) Homo ergaster (primitivo H. erectus); (I) Homo heidelbergensis, “Homem de Rhodesia”; (J) Homo sapiens neanderthalensis; (K) Homo sapiens neanderthalensis; (L) Homo sapiens neanderthalensis; (M) Homo sapiens sapiens, 30.000 anos; (N) Homo sapiens sapiens moderno.

  O crescimento do crânio aparentemente trouxe uma vantagem: possuir um cérebro maior e, portanto, mais desenvolvido. Todavia, temos que lembrar que certos outros animais, incluindo mamíferos, possuem crânios muito maiores do que os humanos, e sua capacidade cognitiva não se desenvolveu a tal ponto – estou tentando não fazer uma coisa antropocêntrica e dizer que “humanos são o ápice da evolução”. O crescimento do volume craniano também trouxe a necessidade de uma nutrição diferenciada, exigindo novos hábitos alimentares e sociais, e também outras mudanças anatômicas:
  Laços sociais: a formação de grupos favorecia a probabilidade de sobrevivência. Nossos ancestrais se reuniam em grupos para compartilhar comida, ferramentas e abrigo. Éramos grupos essencialmente nômades, e sabemos disso através de correlações químicas, por exemplo, de ferramentas encontradas em um ponto geográfico e minerais encontrados há alguns quilômetros de distância.
  Nossas ferramentas vinham dos mais criativos materiais. Poderíamos usar um pedaço de mandíbula de um animal morto, pedras lascadas, ou paus, ou pedras que eram aquecidas em fogueiras (afinal, já dominávamos o fogo).
  O nosso desenvolvimento também se alterou. As crianças nasciam com o crânio relativamente reduzido (lembre que a cirurgia cesariana é algo relativamente recente). Analisando por exemplo, a quantidade de camadas de esmalte dos dentes de alguns fósseis e de crianças atuais, cientistas conseguiram definir que as taxas de crescimento não foram alteradas.




 Com o passar do tempo, nossas relações sociais foram se aprimorando. Desenvolvemos novos métodos de organização, novas estruturas sociais, regras. Os meios de comunicação e transporte diminuiu barreiras entre as comunidades. Preservamos muitos dos hábitos pré-históricos ainda hoje.
  A pesquisadora Susanne Shultz (então de Oxford, mas hoje trabalha na Universidade de Manchester, aqui) utilizou métodos estatísiticos para mostrar como a alteração de hábito de vida noturno para diúrno foi favorecido pela manutenção da vida social na evolução humana. Talvez um suporte para essa hipótese de Susanne seria a redução da abertura do olho como foi dito anteriormente: ao longo da evolução humana, essa abertura no crânio foi sendo reduzida, e animais noturnos tendem a possuir uma abertura maior, que possibilite a entrada da escassa luz noturna.

  Maior cérebro: o aumento do crânio também permitiu que o cérebro fosse maior. Um maior cérebro, intuitivamente, deve possibilitar um melhor desenvolvimento cognitivo, mas isso não é regra. A questão aqui é mais sobre “como o cérebro se desenvolve” ao longo da vida. Sabemos que o cérebro de muitos mamíferos crescem rapidamente durante o desenvolvimento embrionário até o momento do nascimento, depois ele diminui as taxas de crescimento. Já os humanos têm uma taxa acelerada de crescimento cerebral antes do nascimento e essa taxa continua durante a infância.

Na horizontal, acompanhe o crescimento da massa corporal. Na vertical, acompanhe o crescimento da massa do cérebro. Vermelho é chimpanzé, azul é humano. Enquanto o cérebro de chimpanzés reduzem o crescimento após o nascimento (“newborn”), o cérebro humano continua crescimento durante a infância.
http://10e.devbio.com/article.php?ch=2&id=8

  Algo interessante sobre o cérebro humano é a ocorrência de dobraduras do córtex (parte externa). Até pouco tempo, achava-se que “mais dobraduras possibilitavam mais conexões entre neurônios, chamadas sinapses”, porém, os cientistas brasileiros Suzana Herculano-Houzel e Bruno Mota mostraram que esta anatomia deve-se apenas a fatores físicos e disponibilidade de área dentro do crânio (artigo deles aqui, entrevista ao Ciência Hoje aqui).
  Um fator que colaborou com o crescimento do tamanho do cérebro foi a variação de temperatura. Analisando a relação entre as variações de temperatura de uma área com as dimensões de crânios encontrados ali, foi possível inferir que, durante altas variações climáticas, o cérebro humano aumentou consideravelmente a sua capacidade volumétrica.

Acima, variação de temperatura. Abaixo, volume de caixa craniana. Observe as duas medidas em relação ao período de tempo no eixo horizontal.
Imagem de exposição do museu, retirado do site oficial. humanorigins.si.edu/human-characteristics/brains

  Anatomia: as mudanças anatômicas foram importantes principalmente na postura ereta, bipedalismo e deixarmos de subir em árvores. Uma das principais mudanças foi como são feitas a articulação entre a coxa e a pélvis, e a articulação do joelho. Essa nova articulação faz com que a base de sustentação de localize no centro de gravidade do corpo, não fazendo mais necessário o uso das mãos para se sustentar.

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142006000300023
  Outro ponto importante é que a ligação entre a coluna vertebral e o crânio deveria mudar. Pense que um animal que tenha a coluna na horizontal deve ter uma ligação vértebra-crânio na porção posterior da cabeça (assim ele olha para a frente). Se esse animal passa a ter uma coluna vertical, a ligação agora deve ser na porção inferior da cabeça, ou então ele ficará olhando pra cima.
  Essa ligação se chama “forame magnum” ou buraco occipital. Observe a imagem abaixo.
Observe que o Forame Magnum do chimpanzé se localiza mais atrás do que o dos humanos. Na direita, uma situação intermediária.
http://roberto-furnari.blogspot.com/2015/05/evolucao-humana-parte-3-primeiros.html

  Para mais informações sobre a galeria de origens humanas do Smithsonian, visite o site oficial: http://humanorigins.si.edu/

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s