Do corante de iogurte aos corantes de remédios

  “Segredo Comercial é o nome do direito que a Legislação dá à Indústria de Alimentos de não sabermos o que a gente está comendo”, assim que começa o vídeo do canal Do Campo à Mesa (aqui) sobre o uso de corantes de iogurtes.

  A lógica de Francine Lima é bem simples: se colocando três morangos em um copo de iogurte, temos o mesmo resultado de cor dos iogurtes industriais, não existe motivo para adicionar corantes artificiais a não ser que não haja a adição suficiente de morango nos iogurtes industriais.
  Com essa problemática, comecei a fazer uma rápida pesquisa sobre corantes artificiais em alimentos. A primeira fonte interessante foi um comentário do próprio vídeo:

Então, tem corante porque quase não tem morango. o sabor vem de aromatizantes (que não são tão do mal quanto parecem, trabalhei nessa industria e, tirando alguns que vão em balas, são todos naturais. na embalagem ta escrito natural idêntico pq não é p ex um aroma morango que foi extraído de um morango, e sim de varias matérias primas naturais que são combinadas até ter o sabor parecido com morango. essa distinção só é feita no Brasil). mas se o iogurte tiver sabor morango e não for rosa, prejudica o processo sensorial, pois nosso cérebro associa essa cor a esse aroma. ou seja, nós comemos com os olhos, de fato. pra ter o moranguinho estampado na frente, é preciso que contenha uma porcentagem mínima de fruta, prevista em legislação para cada tipo de produto. em geral é uma quantidade realmente simbólica, que não faz diferença no produto final. isso tudo é porque não temos morango o ano todo ou em quantidade suficiente para abastecer o mundo de produtos à base de morango e também por questões de padronização dos produtos industriais, então não é interessante utilizar a fruta, pq pode variar muito o sabor, além de todos os outros fatores. por fim, acredito que seja importante falar sobre isso para que quem for consumir esteja consciente do que consome, mas também não se pode esperar da indústria algo realmente saudável, principalmente quando se trata de produtos acabados que, se fossem feitos artesanalmente, durariam muito menos do que aqueles vendidos no supermercado. São pensamentos que vão em contra mão, não da pra fazer o raciocínio “iogurte é saudável. olha, iogurte no supermercado!” e comprar. o iogurte de mercado é complicado bem menos pela falta de morangos do que pelo processo uht que o leite é submetido e do fato de muitos desses iogurtes nem poderem ser assim chamados, pois são na verdade uma bebida láctea com gomas, estabilizantes e conservantes que simulam um iogurte de verdade, que da muito mais trabalho produzir. enfim, fico feliz que o mundo esteja começando a andar na contra mão da comida por atacado :)

  Se, por um lado, temos uma legislação que exige um mínimo (bem mínimo) de frutas em iogurtes, também temos uma legislação que regulamenta a qualidade dessas bebidas. A Instrução Normativa n° 16 – MAPA (aqui) traz a tabela abaixo com limites máximos de acidulante, corante, estabilizante, emulsificante e conservador, ou seja, um monte de coisas que são adicionadas ao longo do processo industrial para “melhorar” o iogurte. Quanto aos corantes, a tabela traz o seguinte (a primeira coluna é um código de identificação, a segunda é o produto, e a terceira é a concentração máxima no produto final):
  O carmin de cochonila, aparentemente o corante mais frequente em iogurtes de morango e outros alimentos de cor avermelhada, é oriundo de um inseto, a própria cochonila. Embora seu uso não seja maléfico à saúde humana – há registros do uso deste corante desde de a antiguidade, pelos ameríndios, principalmente os astecas -, há aqui uma problemática ética: grupos de defesa animal julgam fútil a criação de quantidades exorbitantes de insetos para produção de corante. Para obter 450g de carmin, são necessários 70.000 indivíduos de cochonila (aqui).
  A partir do carmin de cochonila, comecei a procurar outros tipos de corantes presentes em alimentos e, para minha surpresa, descobri que medicamentos também possuem corante! É utilizada a mesma explicação da produção industrial de alimentos para uso de corantes em medicamentos infantis: estimular a percepção visual. Obviamente, a diversidade de corantes em medicamentos é maior do que em iogurtes de morango. O trabalho “Presença de corantes e lactose em medicamentos: avaliação de 181 produtos” (Stefani et al, 2009) (aqui) traz uma análise de medicamentos bem consumidos no Brasil quanto à presença de lactose e corantes.
  Aqui quero chamar a atenção para o corante chamado Eritrosina. Este corante está presente em analgésicos e anti-térmicos (Novalgina xarope e genérico de Dipirona Sódica em solução oral), antibióticos (genérico de Amoxixilina e Amoxil) e corticosteróides orais (Dexametasona). Os efeitos adversos a este corante já registrados em literatura são fotossensibilidade, eritrodermia, descamação, broncoespasmo e elevação dos níveis totais de hormônios tireoidianos. O estudo “Corantes Alimentícios Amaranto, Eritrosina B e Tartrazina, e seus possíveis Efeitos Maléficos à Saúde Humana” (Anastácio et al, 2016) (aqui) mostra que já há uma preocupação global sobre o uso de alguns corantes refletida nas publicações e pesquisas nesta área.

Ao fim dos experimentos, Chequer et al. comprovaram que a eritrosina B tem potencial genotóxico e mutagênico. Nas duas concentrações mais elevadas, o corante foi capaz de causar dano direto ao DNA celular, pelo Teste Cometa. Adicionalmente, efeitos mutagênicos foram observados em seis das sete concentrações testadas, após análise pelo CBMN-Cyt.

Exposição prévia do DNA a concentrações mais elevadas da eritrosina B, diminuem a efetividade do PCR, confirmando que algumas moléculas do DNA possam sofrer alterações durante sua exposição ao corante. 

  Por fim, o estudo “Avaliação da degradação e toxicidade dos corantes alimentícios Eritrosina e Carmim de Cochonilha através de processo fotoquímico” (Spellmeier e Stülp, 2009) (aqui) mostra que, após tratamento intenso por processo fotoquímico com UV, a eritrosina se torna altamente tóxica. Isso não é algo que nós, cidadãos comuns, devamos nos preocupar, já que, dentro de uma caixa, dificilmente um medicamento sofrerá degradação por UV, mas já é um indício de que este corante pode ser catabolizado em partes tóxicas. Não houve evidência de toxicidade do Carmin após o tratamento fotoquímico.
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