Ciência sem Fronteiras – Academic Training: dicas, sugestões, vivências…

  O programa Ciência sem Fronteiras foi, sem dúvida, um dos melhores momentos de minha vida pessoal e acadêmica… Mas vamos falar da parte acadêmica da coisa agora: além de aprimorar o meu inglês, cursar diversas disciplinas de meu interesse, desenvolver alguns projetos de pesquisa e fazer contatos com (futuros) pesquisadores de diversas áreas do mundo, tive o que posso chamar de minha primeira experiência profissional na área de Ciências Biológicas. Primeira experiência fora da universidade, retirando qualquer experiência de iniciação científica, que já tinha começado anos antes.
  Este post tem como objetivo mostrar a minha experiência e dar dicas de como conseguir aquele estágio dos sonhos. Apesar de dar dicas direcionadas para estudantes de Ciências Biológicas, algumas coisas são bem generalistas e podem ser aplicadas a outras áreas, principalmente este primeiro passo:

1. Como conseguir o estágio:
  O IIE (empresa americana que intermedeia a relação com a CAPES/CNPq e toma conta da gente enquanto estamos nos EUA) vai dar diversas dicas e webinars sobre como proceder, como escrever uma carta, e ELES VÃO TE ENVIAR UMA CARTA QUE PODE/DEVE SER ENVIADA JUNTO COM O SEU CURRÍCULO. Não vou postar uma cópia desta carta, pois eles mesmos pedem para que não publiquemos e pode ser que essa carta mude. A carta vem explicando o que é o CsF, quem é o IIE e diz que o IIE irá arcar com os custos de vistos e documentação do período do estágio, pois somos J-1.
  Os custos com visto e documentações para que um J-1 trabalhe legalmente é o principal problema que estudantes estrangeiros com esse tipo de visto enfrentam na hora de pedir um estágio de verão (esse é um dos motivos de algumas empresas exporem que só aceitam candidatos residentes legais). Se por um lado, essa carta facilita, por outro, ela traz um problema: ela diz que a gente receberá uma ajuda de custo (a bola trimensal) e, assim, é possível que te ofereçam um cargo voluntário pois “ah, esse cara já vai receber a grana do IIE, e eu ainda vou pagar mais pra ele?”… Isso aconteceu com dois amigos meus.
  A melhor hora para começar a procurar estágio é agora: nenhum amigo meu ficou sem estágio (apenas uma amiga teve o estágio rejeitado em cima da hora porque tinha contato com pacientes hospitalares, mas ela preferiu não procurar outro e retornar ao Brasil antes). Porém, sempre há essa possibilidade, então adiante-se! Dos 473 e-mails que eu enviei (eu guardei todos em uma pasta no gmail para me organizar), recebi dois SIM, poucos NÃO e diversos SEM RESPOSTA. Na verdade, mesmo depois de conseguir o meu estágio, ainda recebia alguns NÃO muito antigos.

  • Envie e-mails diretos, se apresentando, explicando sucintamente o que é o CsF e que você procura uma oportunidade de estágio de verão. Diga por que você quer essa vaga e quais a suas qualificações.
  • Se você já leu sobre o pesquisador/empresa (por exemplo, já leu os artigos dele e conhece a linha de pesquisa), cite isso. Mas não invente que sabe o que você não sabe.
  • Crie uma planilha Excel com os dados de todos os contatos para quem você enviou e-mail: nome, empresa/universidade/instituição, data, área, observações gerais e “resposta”. Isso é muito importante: quando eu consegui o meu estágio, eu havia enviado um e-mail para um pesquisador chamado Rafael Lamaitre, o qual encaminhou o meu e-mail para um colega. Quem respondeu o meu e-mail foi o Chad Walter. É muito comum essa troca de e-mails entre os pesquisadores, e alguns não nos informam.
  • Procure nas universidades! Pesquise por pesquisadores da sua universidade, procure saber qual a linha de pesquisa dos seus professores, pergunte a colegas que já fizeram estágio!
  • Crie o seu currículo de acordo com o modelo do IIE, mas faça pequenas alterações.
  • Sempre responda os e-mails, mesmo que receba um NÃO. Diga que está muito agradecido e peça para que repasse para outros contatos que saiba que podem ter interesse em te contratar.
  Claro que é importante que você procure estágio na área que você pretende atuar, porém, lembre-se que o programa tem três estágios e, apesar de o Academic Training não ser obrigatório na prática, ele é bastante importante para o seu currículo. Considere procurar áreas similares – poucos colegas meus fizeram estágio precisamente na área de pesquisa que atuavam no Brasil.

2. Lugares que eu sonhei em conseguir estágio:
  Eu estava morando em Indiana, cidade de Bloomington. Tinha viajado para Chicago e, como me apaixonei pela cidade, decidi que queria fazer o Academic Training lá. Enviei e-mail para TODOS os pesquisadores dos museus, principalmente do Field Museum. Só faltei pedir vaga de porteiro ou lustrador de móveis “mas, por favor, me deixa trabalhar no Field!”.
♥Pesquisadores do Field Museum (página geral): aqui.
♦Coleção de Invertebrados: aqui.
♣Coleção de Moluscos (pesquise pelos revisores da revista Malacologia): aqui.
  Depois houve uma feira de ciências na Indiana University, e anotei o contato de todos os pesquisadores que me interessavam. Enviei e-mails e um deles me respondeu e disse que tinha vaga. Ele também respondeu uma amiga minha, nos concedeu a vaga para trabalhar no verão mas, um mês depois, ele mudou de ideia e preferiu contratar alguém que permanecesse no estágio por mais tempo.
♠Pesquisadores da Indiana University: aqui.
  Não se espante se não conseguir encontrar o contato de professores de algumas universidades. Elas simplesmente não dispõem os dados para o público externo, como acontece com algumas universidades de Chicago.
  Outra forma de encontrar oportunidades é a mesma forma como fazemos para encontrar qualquer coisa na Internet: Google. Pesquise por “summer internship biology” ou troque biology por sua área de interesse. Altere a pesquisa, procure por uma região, ou paid. Algumas oportunidades vão pedir inscrições no site, ou até que você envie documentação por correio. Olhe esse site (aqui), por exemplo.
3. Meu estágio:
  Como disse, consegui o estágio em Washington através do contato com outra pessoa, e esse foi o estágio que escolhi. Mas, uma semana antes, eu tinha conseguido um estágio no Texas, em San Antonio. Por isso eu digo que procurar em outras universidades é tão importante. Procure saber com outros amigos do CsF que estão em outras universidades.
  Trabalhar no Smithsonian foi uma experiência incrível! Eu estava no principal museu dos Estados Unidos, onde holótipos do mundo inteiro estão depositados (diversos do Brasil!), além de ter acesso a todos os museus a qualquer momento com a minha carteirinha. Se eu quisesse, poderia chegar no museu com horas de antecedência e visitar qualquer área sem todo aquele movimento de pessoas. Além disso, eu estava vivendo em Washington D.C., estava visitando a Casa Branca e outros diversos monumentos e museus, saindo para passear no Washington Memorial de tardinha, indo pro estágio de bike compartilhada… Foram quatro meses de alegria.
☼Smithsonian Institution: aqui.
☼Smithsonian Marine Station at Fort Pierce, FL: here.
☼Pesquise outras instituições do Smithsonian. Por exemplo, se você faz algo na área de engenharia, procure o Museu Aéreo-Espacial. Se você for da área de Indústria Criativa (e.g. Design), há diversos museus de arte onde você tem chance de trabalhar. O que há por trás desses museus, além da área de visitação, é inimaginável!
  Além de todas essas vantagens de morar em “Dí Cí” e trabalhar no Smithsonian (e o alto custo, claro), você tem a oportunidade de conhecer mais de 17 museus (eu fui em 17, e ainda teve alguns que não consegui visitar) e participar de eventos científicos e sociais do National Museum of Natural History (NMNH, comece a falar essa sigla logo). Palestras sobre pesquisas desenvolvidas lá dentro, ou de pesquisadores convidados e visitantes (você vai conhecer brasileiro de todo canto do BR, pois sempre tem alguém indo lá para fazer parte da pesquisa), visitas a áreas internas do museu toda semana (as vezes, duas na semana), cafezinhos, e Happy Hour toda sexta de tarde (com cerveja a dois dólares haha).
Salão do National Museum of Natural History. http://www.historictours.com/washington/pictures-photos.php
Ele nunca está vazio assim no verão.
  Outra coisa: você vai ter que escolher um lugar para morar. A Howard é uma universidade muito bem localizada na cidade, porém a Catholic University of America (CUA) é a que, apesar do nome, oferece mais liberdade (como poder beber em casa). Pesquise, pois há outras universidades mais próximas do NMNH. Eu não aconselho a solicitar meal plan, pois você não terá tempo de ir almoçar. O importante é analisar cada caso e oferta.

4. O que exatamente eu fiz:
  Não se engane. Dificilmente você fará um estágio com algum projeto que produza algo publicável em uma revista científica, principalmente no NMNH. A maioria dos trabalhos lá são de curadoria e auxílio a operações do museu. Eu, por exemplo, fiz uma reorganização de toda a coleção de tipo de lâminas de crustáceos (essa coleção não fica no NMNH, mas em um local em Maryland, mas há um ônibus gratuito que faz a linha para o local, não é longe), e também fiz pequenos reparos na coleção de moluscos e equinodermos. Aprendi a usar o EMU (principal programa de catalogação de museus, muito usado em museus dos EUA, Europa e Austrália) e pude catalogar diversos lotes que recebíamos.
  Não realizei nenhum trabalho específico de taxonomia. Todavia, aproveitei que estava no NMNH e tive acesso a alguns espécimens de gêneros e famílias que trabalhei enquanto estava no Brasil. Também dediquei algum tempo para fazer favores a amigos no Brasil, como tirar fotos de tipos para projetos de pesquisa. Essa é, sem dúvidas, uma experiência que pesará em qualquer banca avaliativa que eu possa participar na área de zoologia.

  O período do estágio de verão é como um mini-CsF. Você tem a chance de se mudar, de trabalhar na área de seu interesse ou até de ser convidado por um pesquisador que você conhece bem. Então não desperdice. Use aquele precioso tempo em que você termina todos os seus homeworks para procurar. Eu sempre preferi trabalhar durante a noite, então tirava uma ou duas horas nos dias de semana para dar uma olhadinha nas oportunidades e enviar e-mails. Aproveite também o momento entre os dois semestres acadêmicos, já que você não estará preocupado com nada além da matrícula.
  Muitas oportunidades só são lançadas no mês de março, pois alguns professores nem têm ainda previsão de o que farão durante o verão: um pesquisador da Indiana University me disse para procurá-lo em abril, pois com certeza teria um cargo para mim, mas eu não queria confiar na sorte, já que já tinha havido uma desistência recente. Confirmei o meu estágio em meados de fevereiro.
  É importante que você siga os passos do IIE, envie toda a documentação o quanto antes, pois há uma obvia enrolação quando muitas pessoas conseguem estágio nos meses de abril e maio. Quanto antes você completar a survey, antes você vai receber o seu auxílio financeiro.
Boa sorte!      
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