Chimpanzés jogando pedras

  Um artigo sobre comportamento de chimpanzés foi muito divulgado na mídia de popularização da Ciência no começo do ano. Trata-se de um estudo sobre comportamento de “empilhamento de pedras” realizado por alguns grupos de chimpanzés e, segundo muitas publicações de ampla circulação, se tratava de algo como “a origem da religião”.

  De fato, o artigo em questão menciona um rito de um grupo nativo africano localizado na região de Black Volta, em Bukina Faso, mas isso quase se passa despercebido diante do enredo do artigo. Não se faz qualquer menção a “primeiro Deus” ou “origem de religiões”… Mais na frente falaremos sobre esse aspecto do trabalho.
  A pesquisa foi desenvolvida por dois pesquisadores, Hjalmar S. Kühl (aqui) e Ammie K. Kalan (aqui), ambos do Departamento de Primatologia do Instituto Max Planck (aqui), da Alemanha. A publicação ainda conta com uma série de colaborações mencionadas como co-autores, isso porque o trabalho deve ter sido mesmo uma barra pesada e necessitou de vários operadores. Observe.
  O artigo “Chimpanzee accumulative stone throwing” (aqui) foi publicado em fevereiro/2016. É basicamente um estudo bem detalhado de um comportamento observado em grupos de chimpanzés no qual os animais lançam rochas em árvores – ou, em alguns casos, cavidades de árvores – e causam um acúmulo dessas rochas. O vídeo abaixo é uma série de registros realizados pelos pesquisadores.
  O trabalho foi realizado entre os anos de 2011 e 2015, foram 34 sítios de estudo (cada um teve monitoramento entre 14 e 17 meses), entre os quais apenas 4 apresentaram o comportamento analisado no artigo.
Imagem retirada do artigo “Chimpanzee accumulative stone
throwing

  A imagem acima, retirada do próprio artigo, mostra os pontos de estudo do projeto “Pan African Programme: The Cultured Chimpanzee” (sigla “PanAf”). Os pontos em branco com números são as localidades onde o comportamento de lançamento de rochas foi observado. Ou seja, observamos que há uma proximidade entre os grupos com registro do comportamento. Isso corrobora – e é corroborado – pela ideia de que comportamentos são características associadas a grupos e, assim, podemos supor que, dentro de uma árvore filogenética, haverá comportamentos que são caracterizados como sinapomorfias, aparecendo e desaparecendo, como uma característica morfológica qualquer. Assim, poderíamos supor que esses quatro grupos são mais aparentados. Claro, há interferências nessas ideias, como, por exemplo, se um grupo migrasse para um local muito distante dos outros e “instalasse” o comportamento em outra (meta-)população.

  Embora alguns pesquisadores alegassem que a transmissão de cultura fosse uma visão antropocêntrica do comportamento animal, atualmente, muitos estudos já provam que isso é bem provável como método de aprendizagem de novos hábitos (apesar desse termo não estar muito adequado…). O estudo “Culture in Chimpanzees” de A. Whiten et. al. (publicado na Nature em 1999) é um levantamento de variações de hábitos em diferentes grupos e mostrou como muitos se assemelham e, inclusive, em relação à distância entre as meta-populações.
  A análise do comportamento foi bastante detalhada e dados estatísticos foram publicados minuciosamente. Dividiu-se o ritual (não precisa levar para o sentido religioso!) em quatro fases: (1) Início caracterizado por pegar a pedra, (2) pant hoot, que é um processo específico de vocalização, (3) lançar a pedra que pode ser seguido por outras varações de comportamento (como bater na árvore, jogar diretamente na árvore ou jogar dentro de uma cavidade formada na árvore ou pelas raízes tabulares), e (4) finalização na qual o indivíduo pode também apresentar variações como exibir-se ou continuar a viagem. O diagrama abaixo mostra a linha de ocorrência dos comportamentos  quantas vezes foram observados.
Diagrama retirado do artigo “Chimpanzee accumulative stone throwing

  A respeito dos comportamentos observados, fontes secundárias colaboram na interpretação deles. Os processos de vocalização foram bem estudados por John C. Mitani et al no trabalho “Dialetics in Wild Chimpanzees?” (publicado em 1992 no American Journal ou Primatology). O diagrama abaixo mostra a divisão dos sons emitidos pelos chimpanzés (volte ao vídeo e tente identificar essas etapas!). Essas vocalizações podem ser interpretadas como sinais combativos.

Diagrama retirado do artigo “Dialetics in Wild Chimpanzees?
  Observe que pant hoot só foi observado em 50 indivíduos do grupo de 64: o artigo explica que houve um problema na gravação do áudio da câmera e 14 vídeos não registraram a sonorização.
  Além da vocalização, o bamboleio para frente e para trás e a apresentação de arrepios (piloereção) também são sinais combativos, mas também podem ser interpretados como processo de corte.
  Ainda foi feito um levantamento das densidades de rochas disponíveis e de árvores totais e com cavidades em cada localidade. Aparentemente não há uma seleção de local de acordo com a disponibilidade de recursos envolvidos no ritual (pedras e árvores). Acho que não dá também para inferir isso porque não é mencionado o método para seleção de local a ser filmado, pois se selecionaram árvores com cavidades, ou árvores que já apresentam acúmulo de rochas, não foram analisados os locais com árvores sem cavidades ou onde o acúmulo de rochas ainda não ocorreu.
  Como disse no início do texto, a grande repercussão deste trabalho se deu por os pesquisadores atrelarem o comportamento observado com a descrição de amontoamento de pedras em volta de árvores consideradas sagradas por um grupo de nativos africados de Black Volta (a descrição desse hábito está registrada em “Of Trees and Earth Shrines: an Interdisciplinary Approach to Settlement of Histories in the West African Savanna“, de Carola lentz e Hans-Jürgen Sturm, publicado em History in Africa em 2001). Importante mencionar que Black Volta não está tão distante dos locais de estudo do trabalho de Kühl e Kalan. O que me surpreende a respeito da repercussão deste artigo é que simplesmente o trecho que faz a relação entre os dois comportamentos é um parágrafo relativamente pequeno e que, deste parágrafo, se inferiu diversas informações como “origem das religiões” e “primeiro Deus”.
  O hábito de acumular pedras ou de utilizar pedras como marcadores são comuns, inclusive entre humanos. Nós marcamos santuários como Stonehenge, sinalizamos túmulos (com lápides ou Matzeivá de judeus), consideramos algumas como sagradas (como a pedra na Kaaba). Pense, por exemplo, que as pirâmides do Egito são amontoados de pedras que formam um santuário. Ainda usamos (ou usávamos) pedras como método de contagem e como moeda. Há poucos passos evolutivos entre nós e os chimpanzés, provavelmente três ou quatro gêneros.
  A nossa visão antropocêntrica é tão forte – e ainda subestimamos tanto outros animais – que nos surpreendemos com a inteligência deles. Observe, por exemplo, a notícia abaixo sobre um chimpanzé em cativeiro que acumulava pedras durante a noite para lançar contra expectadores que apareciam durante o dia. Ele ainda acumulava as pedras em um local da jaula que dava uma melhor mira para o arremesso. Ainda por cima, quando tiraram as rochas, ele retirou algumas “a força” do chão e moldou discos!
Acesse a notícia aqui.
  O nosso menosprezo pela cultura de outros animais nos levou a considerar a criação de uma ciência para estudar artefatos de nossos passados (a Arqueologia), mas não tínhamos pensado em estudar artefatos arqueológicos de outros primatas (até algum tempo, discutia-se se outros animais desenvolviam ferramentas). Foi então que surgiu em 2009 o campo da Arqueologia de Primatas, pesquisadores tentando fazer Ciência fora de abordagens (muito) antropocêntricas (para mais informações sobre esse campo, acesse aqui).
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