Bioinvasão e Parasitismo: Melanoides tuberculata.

malaj5O primeiro pensamento comum que as pessoas têm ao ouvir falar de caracol deve ser escargots ou aqueles grandes caramujo-gigante-africanos. O Melanoides tuberculata adulto tem entre 2 e 2,7 centímetros, mas, em algumas populações, podem chegar a ter entre 3 e 3,7. A variação morfológica da espécie é registrada também na coloração das conchas, como mostra a imagem ao lado. A estrutura populacional varia bastante de trabalho para trabalho.
O M. tuberculata é nativo do norte da África e sul da Ásia, mas já se encontra introduzido pela América. Não raramente, há novos registros de ocorrência. É indiscutível a sua capacidade de colonizar áreas antropizadas e com matéria orgânica abundante.

A introdução no Brasil ocorreu no final da década de 60, e há evidências de que foi proposital. Como este molusco reproduz rapidamente e pode atingir populações muito numerosas, seria um competidor por recursos naturais contra outros moluscos nativos que transmitem doença, como o Biomphalaria. A medida parece ser plausível, contudo, estudos mais recentes mostram que o M. tuberculata também pode ser hospedeiro intermediário de diversas doenças exóticas, principalmente para peixes e aves. A medida não foi feita exclusivamente no Brasil. Este trabalho mostra que o mesmo foi feito em Santa Lúcia (ilhas caribenhas) e com sucesso. Diversos outros trabalhos mostram o sucesso desta medida ambiental.

Os estudos sobre a transmissão de doenças pelo M. tuberculata não chegaram definir exatamente qual parasito é transmitido, focam-se na taxonomia do verme em grandes grupos ou apenas na forma de carcária ou rédia.
Para esclarecer: há um grupo de vermes da subclasse Digenea que evoluiu com moluscos de água doce em um grande exemplo de parasitismo. Estes vermes atualmente são classificados como trematódeos (classe Trematoda). O exemplo mais comum de Digenea é Schistosoma mansoni, causador da esquistossomose ou “barriga d’água”. O grupo Digenea é marcado pela necessidade de mais de um hospedeiro para completar o seu ciclo de vida, que inclui diversas fases e formas.
De acordo com Pechenik (2014), o ciclo inicia-se com um ovo fertilizado e liberado no ambiente que dará origem a um miracídio, larva sem intestino e nadante. A larva miracídio entrará em contato com um molusco – normalmente um gastrópode de água doce – e poderá ser ingerido ou alojar-se abaixo de sua concha. Esta relação é específica, ou seja, a larva procura uma determinada espécie de molusco, havendo preferências. O estágio seguinte é atingido por desdiferenciação, chama-se esporocisto-mãe e abriga-se no sistema circulatório do hospedeiro intermediário.
O esporocisto-mãe produzirá embriões que serão esporocisto-filhas ou rédias, a depender da espécie de Digenea estudada (o estágio de rédia tem capacidade de alimentação ativa e não está presente em todos ciclos de vida), e migrará para o sistema digestivo ou gônadas do molusco. Uma nova desdiferenciação ocorrerá e o estágio seguinte é chamado cercária.
Cercárias geralmente são nadantes livres e podem invadir o hospedeiro definitivo ativamente. Como o hospedeiro definitivo é pouco específico, algumas cercárias mantêm-se no hospedeiro intermediário como metacercárias e aguardam até que sejam ingeridos por um predador.
A imagem abaixo mostra diferentes fases do ciclo de um Digenea.

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Grande parte dos trabalhos feitos sobre trematodes associados a M. tuberculata é brasileira. Um trabalho de Bogéa et. al (2005) identifica cercárias da família Heterophyidae. A taxonomia dos parasitos foi feita a partir da análise morfológica e da quetotaxia – análise de receptores sensoriais. O mesmo trabalho mostra como taxas de indivíduos infestados varia entre corpos d’água.
Um outro trabalho, de Pinto & Melo (2010) identifica larvas da mesma família em M. tuberculata na Lagoa da Pampulha. Este trabalho conseguiu atingir o nível taxonômico de espécie e definir o parasito como Centrocestus formosanus graças ao estudo de todo o ciclo de vida. Isto foi possível com a infestação de peixes e ratos (hospeiro definitivo) em laboratório. A mesma espécie de trematódeo foi descrita em pelo menos sete localidades pelo mundo (Brasil, Venezuela, Colômbia, Laos, Taiwan e Hong Kong) com hospedeiros definitivos diferentes (dois gêneros de rato, galo, ave do gênero Nycticorax, etc.); Definitivamente, este é um hospedeiro de baixíssima especificidade com hospedeiro definitivo.
A baixa especificidade com hospedeiro é preocupante porque não descarta humanos de serem infestados, principalmente quando grandes corpos d’água são reservatórios de gastrópodes infestados – Pinto & Melo (2010) coletaram 3.834 espécimens de M. tuberculata e identificaram 7,0% deles como infestados.
Não encontrei trabalhos que identifiquem Schistosoma mansoni neste molusco em particular, mas acredito que, como há alta especificidade de hospedeiro intermediário, isto seja improvável.

 

Outras informações:

Apesar de diversos trabalhos descreverem o animal como Melanoides tuberculatus, está errado. O gênero foi descrito em 1804 por Olivier. Link1. Link2.
Há dois nomes usuais em inglês para este gastrópode: “Red-rimmed” e “Malaysian Trumpet”.
O motivo de tamanha variação morfológica não é esclarecida: pode haver diversos morfotipos em uma mesma população. Provavelmente a cor da concha não é uma característica tão seletiva neste caso.
Além do problema de saúde pública e animal, o M. tuberculata pode ser uma peste para vegetação aquática nativa. Atualmente, estudos estão avançando no uso deste animal como bioindicador de poluição de corpos d’água.

Referências:
BOGÉA, T.; CORDEIRO, F.M. & GOUVEIA, J.S. – Melanoides tuberculatus (Gastropoda: Thiaridae) as intermediate host of Heterophyidae (Trematoda: Digenea) in Rio de Janeiro metropolitan area, Brazil. Rev. Inst. Med. trop. S. Paulo, 47(2):87-90, 2005.
PINTO, H.A. & MELO, A.L. – Melanoides tuberculata (Mollusca: Thiaridae) as an intermediate host of Centrocestus formosanus (Trematoda: Heterophyidae) in Brazil. Re. Inst. Med. Trop. Sao Paulo, 52(4): 207-10, 2010.
ROCHA-MIRANDA, F. & MARTINS-SILVA, M.J. – Fisrt record of the invasive snail Melanoides tuberculatus (Gastropoda: Prosobranchia: Thiaridae) in the Paranã River Basin, GO, Brazil. Braz. J. Biol., 66(4): 1109-1115, 2006.

 

Alguns trabalhos relevantes:
Scholz, T. et al. – Trematodes of the family Heterophyidae (Digenea) in Mexico: a
review of species and new host and geographical records. Journal of Natural History, 2001, 35, no. 12, 1733–1772. Link.
Universidade Nacional de Singapura – Departamento de Ciências Ambientais – Link.

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