Conceito de espécie.

A definição de espécie é um grande problema que os alunos de Biologia encontram logo no primeiro semestre de curso e, provavelmente, levarão este problema até o fim da vida. Diferente do que aprendemos no Ensino Médio, espécie não é simplesmente aquela frase que diz “animais semelhantes, capazes de intercruzarem e gerar descendentes férteis”. Este é o conceito biológico de espécie, o qual entende que espécie é mutável de três formas: (1) a variação individual dos organismos que são parte da espécie (e não membros, de acordo com este conceito, já que, se todos as partes da espécie são extintas, a espécie também se extinguirá), (2) localização da espécie, ou seja, até que ponto da distribuição da espécie não há isolamento geográfico e (3) tempo, isto é, evolução, as mutações que todas espécies sofrem. Certo, esta definição ajuda bastante a resolver grande parte dos problemas, e até pode ser aplicada no dia-a-dia, mas, quando estamos falando de Biologia, temos alguns outros problemas a serem considerados: por exemplo, definir se uma população é reprodutivamente isolada de outra ou não. Não podemos pegar todos os animais do mundo, cruzá-los e descobrir quais produzirão descendentes. Além disto, há seres vivos (inclusive animais) que se reproduzem sem sexo.
A taxonomia – disciplina que se encarrega de descrever animais, plantas e outros seres vivos – inicia-se realmente desde a antiguidade, quando humanos categorizavam animais e plantas que poderiam ser usados medicinalmente, para caça ou usos culturais. A taxonomia como nós vemos atualmente – com nomenclatura binomial – foi criada por Caspard Bauhin e oficializada por Carl von Linné no século XVIII. Desde então, diversos seres vivos puderam ser catalogados e classificados em um sistema único. A taxonomia, naquele período, era uma coisa tão científica quanto artística. Junto com a nomenclatura binomial, Linné institucionalizou o agrupamento e posicionamento na descrição. Agrupamento trata-se do objeto de estudo: se você está descrevendo gatos, gatos da Bahia, gatos cinza da Bahia. O agrupamento define quem está dentro e quem está fora do grado. O posicionamento define qual o tamanho deste grupo: se é uma espécie, um gênero, um domínio.
Eu lembro que a primeira pergunta sobre o tema em sala de aula não foi “o que é espécie?”, mas “existem espécies?”, e isso faz todo sentido dentro dos debates atuais de biologia evolutiva. Seriam espécies naturais ou algo utilizado por humanos? Este conceito de Linné é um conceito tipológico de espécie: ele utiliza “tipos de” e dá uma categoria para o ser vivo. Apesar de ser o conceito mais antigo possível de espécie, este é o conceito ainda utilizado no meio acadêmico. A primeira (e única até o momento) descrição de gastrópode que trabalhei é uma descrição basicamente da morfologia do animal em comparação com todas as outras espécies do gênero descritas. Todas essas notícias de novas espécies que você encontra no Facebook e sites de notícias são baseadas em um conceito tipológico de espécie.

http://g1.globo.com/goias/noticia/2015/02/nova-especie-de-peixe-e-descoberta-por-pesquisadores-em-mambai-go.html

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Para o conceito nominalista, espécie trata-se de uma construção mental, não existente no mundo natural. Ou seja, a natureza não possui essa separação de grupos, cada organismo é um objeto. Sendo natural ou construção mental, o fato é que cientistas continuarão a estudar as espécies. A fraqueza deste conceito está no fato que diversas culturas nomearam animais de uma mesma forma, como, por exemplo, aves, plantas frutíferas, peixes ou cogumelos. É estranho que, sendo uma construção meramente mental, culturas sem contato tenham nomeado grupos de organismos semelhantes.
Perceba que o conceito tipológico não considera a questão de cruzamentos possíveis. Durante séculos, este conceito apresentou problemas como a descrição de uma espécie que apresenta dimorfismo sexual (machos e fêmeas são diferentes) como duas espécies ou ainda a descrição de várias espécies que, na verdade, apresentam grande polimorfismo. Enquanto o conceito tipológico é interessante para os taxonomistas, o conceito biológico é mais interessante para ecólogos e biogeógrafos. O conceito nominalista, por sua vez, foi criado por um biogeógrafo jesuíta que tentava explicar a diversidade biológica após o dilúvio bíblico.

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Kevin De Queiroz. Species Concepts and Species Delimitation. aqui.

O conceito evolutivo de espécie tem alto interesse paleontológico. Esse conceito considera a linhagem evolutiva do grupo para definir espécies e outros grupos maiores. A fraqueza neste conceito está na dificuldade de reconstruir toda uma linhagem fóssil.
Claro, há mais conceitos de espécies do que foram descritos até aqui, cada um abordando uma propriedade de interesse para o estudo. Segundo de Queiroz (2007), o problema para se definir um conceito unificado de espécie está em que cada um dos mais de vinte conceitos de espécie existentes foca em um evento de especiação – processo pelo qual uma espécie dá origem a outras duas espécies. A imagem ao lado mostra a divergência de uma linhagem (o processo específico não importa), uma espécie (embaixo) está dando origem a duas espécies (em cima) e os traços (SC1 a SC9) são os eventos de especiação (quando há isolamento geográfico, quando há diferenciação de nicho, quando há diferenciação anatômica, quando há barreira química reprodutiva, etc.). Após analisar as semelhanças e as diferenças entre os diversos conceitos de espécie existentes, de Queiroz chegou a um ponto comum e geral entre eles: “espécie são (segmentos de) linhagens metapopulacionais que evoluem separadamente”.

 

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