Mais um Titanossauro no Brasil

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Três pesquisadores mineiros e um do Rio Grande do Sul lançaram recentemente um artigo (aqui), no qual descrevem um jovem titanossauro no Brasil. O fóssil foi encontrado no município de Uberaba (MG), mais precisamente ao longo da BR 050 (km 153,5), em 1991 e estava depositado no Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price (CPPLIP, aqui). A formação é do Cretáceo Superior, ou seja, entre 100 milhões e 65 milhões de anos atrás, quando os dinossauros dominavam a Terra, os mamíferos (não-placentários) estavam surgindo e os continentes já começavam a se separar.

Até o momento, titanossauro é o grupo de dinossauro com mais espécies descritas para o Brasil, são dez no total – sendo três dessas encontradas na mesma região, em Uberaba. Os autores não chegaram a identificar qual a espécie do titanossauro que eles encontraram, pois não encontraram o esqueleto completo, nem mesmo grande parte dos ossos: a identificação foi feita com dois centrum de vertebra dorsal e três caudais, parte de um ílio direito e parte de um ísquio também direito. Parece pouca coisa se pensarmos na quantidade de ossos que um dinossauro desse tamanho tem, mas muito do trabalho dos paleontólogos é feito assim mesmo.

O paleontólogo precisa conhecer a anatomia do animal que ele pesquisa muito a fundo. Por exemplo, o centrum é apenas uma parte da vértebra, o disco mais grosso na parte inferior da vertebra, como você pode observar abaixo:

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Anatomia da vértebra de um Titanossauro.

Analisando os fragmentos das vértebras, do ílio e do ísquio, os paleontólogos podem chegar a uma identificação aproximada do fóssil encontrado. Ao longo da evolução dos vertebrados, desde os peixes primitivos até todos os animais atuais, houve muita modificação na estrutura dos ossos, e, graças a essas modificações, os pesquisadores conseguem identificar os grandes grupos.

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Variação de vértebras desde peixes ancestrais até grupos terrestres. Nós, humanos, e os dinossauros estamos dentro daquele último grupo, os amniotas.

Agora observe também que há variação na morfologia de vértebras entre animais de um mesmo grupo. Na imagem abaixo, à esquerda, a vértebra de um humano e, na direita, de um cachorro.

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Variação da anatomia de vértebra dentro de um grande grupo.

Porém, a identificação do fóssil sequer é a maior dificuldade enfrentada pelos paleontólogos. O local onde os fragmentos foram encontrados hoje não existe mais, foi destruído com a expansão da BR 050, o que impede a pesquisa por novos achados.

O trabalho de campo de um paleontólogo é árduo: ao sair em uma expedição, dificilmente o pesquisador irá identificar os achados em campo, normalmente tudo é catalogado e os fósseis são trazidos para um laboratório ou museu, onde são depositados e posteriormente são identificados. Este exemplar, por exemplo, foi encontrado em 1991 e só terminou de ser identificado em 2017. O trabalho de identificação conta com uma consulta árdua a livros, artigos e também de comparação com outros espécimes já identificados e depositados em museus. Por isso a identificação do fóssil pode demorar anos, décadas ou até século desde seu achado.

Os fósseis normalmente são encontrados em locais com rochas preservadas, mesmo lugar que são explorados por atividade mineradora ou construção de vias. Acontece que há pouca ou nenhuma fiscalização nessas áreas e muitas vezes os fósseis são levados junto com os minérios. Em 2006, foram encontrados estromatólitos – sinais deixados por bactérias – no piso de um shopping em São Paulo (aqui). Em 2016, foram encontrados fósseis em um muro de Recife, porém isso é mais comum do que é de fato noticiado: em Salvador, há locais já conhecidos por conter fósseis em na sua estrutura.

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Fóssil encontrado em muro na Zona Norte de Recife

Não falta legislação sobre o tombamento destes espaços. Na página da Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP), há uma reunião da Legislação vigente sobre fósseis, sua extração e preservação (aqui). O que muitos pesquisadores argumentam é a ausência de aplicação da Lei, fiscalização das atividades e rigorosidade no processo de licenciamento ambiental.

MENDELEY DESCOMPLICADO

   Uma das maiores preocupações da Comunidade Científica é provar a fundamentação teórica das suas pesquisas. Isso é importante por diversos motivos:
  • As ciências se preocupam com a reprodutividade dos seus achados. Essa reprodutividade nem sempre quer dizer que um experimento foi replicado integralmente, muitas vezes é um simples apoio em um experimento ou achado que sustenta a pesquisa. Por exemplo, ao testar um material metálico para condutividade elétrica, o pesquisador está reproduzindo testes anteriores que evidenciaram uma “nuvem eletrônica” nas ligas metálicas. Então, ao publicar o seu artigo, o pesquisador terá de, na fundamentação teórica do seu trabalho, referenciar todos os trabalhos anteriores que sustentaram seu novo achado.
  • Os pesquisadores querem que seu trabalho seja referenciado. Um trabalho bastante referenciado indica um trabalho relevante. Como não existe uma pessoa que fica sentada contando as referências de cada trabalho publicado no mundo, isso é feito pelos computadores e seus algoritmos. Se João publica um trabalho e Maria quer referenciar esta publicação no trabalho dela, é importante que a referência seja feita de forma que os algoritmos encontrem e faça a associação entre os dois trabalhos.

Observe que, ao pesquisar um trabalho no Google Acadêmico (aqui), é exibido o número de publicações que citam aquele trabalho. Essa contagem é realizada por algoritmos que correlacionam diferentes títulos.

  • A Comunidade Acadêmica precisa ter acesso aos trabalhos que fundamentam sua pesquisa. Por isso, as referências devem apresentar nome do pesquisador, título, onde foi publicado, data da publicação e outras coisas. Além de apreciar o seu trabalho, um pesquisador pode querer saber mais sobre o assunto ou contestar alguma pesquisa que fundamentou o seu trabalho. E não há nada de errado nisso! A Ciência é feita de contestações e verificações, isso dá credibilidade a ela.

   Como seria uma imensa bagunça se cada um fizesse sua referência do jeito que quisesse, surgiram diversos modelos. Cada local, com sua comunidade acadêmica, foi apresentando um novo modelo de referência. No Brasil, seguimos as regras da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), os EUA seguem a ANSI, Portugal tem o IPQ, e por aí vai… Obviamente que o pesquisador brasileiro pode ser referenciado pelo pesquisador estadunidense e esses dois serem referenciados pelo português. O que aconteceria se cada uma dessas normas técnicas dos diferentes países tivessem regras discordantes? A referenciação seria inútil em âmbito internacional. Para resolver isso, temos o ISO (Organização Internacional para Padronização): criada em 1947, reúne hoje 246 países. Toda norma internacional é mais geral, e cada país membro pode criar suas normas nacionais – que obedecem às normas da ISO – e as regiões dos países obedecem às normas nacionais respectivas. Por exemplo, nos EUA há diversos tipos de fazer uma referência bibliográfica, como MLA, Chicago e APA. O Brasil todo segue uma única norma, a NBR 6023, criada pela ABNT (você pode acessar essa norma aqui).

   Garantir que referências estejam adequadas não é de interesse apenas dos pesquisadores e das agências de regulamentação, as revistas também querem que essas referências sigam uma determinada norma. Quando você vai publicar, precisa escolher a revista científica e, no site dela deve conter as regras de publicação, que incluem o tipo de referência que deve ser feita. Pensando nisso, a Elsevier, uma grande fornecedora de jornais e revistas científicas, criou o Mendeley (aqui). O Mendeley é uma plataforma social para público acadêmico com diversas utilidades, dentre as quais, apresenta um serviço gratuito que ajuda a criar referências das mais diversas normas, facilitando o seu trabalho.
   O tutorial que segue abaixo ensina a criar uma conta no Mendeley, e o seguinte ensina a criar seu banco de referências. Vamos lá!

(mais…)

Do corante de iogurte aos corantes de remédios

  “Segredo Comercial é o nome do direito que a Legislação dá à Indústria de Alimentos de não sabermos o que a gente está comendo”, assim que começa o vídeo do canal Do Campo à Mesa (aqui) sobre o uso de corantes de iogurtes.

  A lógica de Francine Lima é bem simples: se colocando três morangos em um copo de iogurte, temos o mesmo resultado de cor dos iogurtes industriais, não existe motivo para adicionar corantes artificiais a não ser que não haja a adição suficiente de morango nos iogurtes industriais.
  Com essa problemática, comecei a fazer uma rápida pesquisa sobre corantes artificiais em alimentos. A primeira fonte interessante foi um comentário do próprio vídeo:

Então, tem corante porque quase não tem morango. o sabor vem de aromatizantes (que não são tão do mal quanto parecem, trabalhei nessa industria e, tirando alguns que vão em balas, são todos naturais. na embalagem ta escrito natural idêntico pq não é p ex um aroma morango que foi extraído de um morango, e sim de varias matérias primas naturais que são combinadas até ter o sabor parecido com morango. essa distinção só é feita no Brasil). mas se o iogurte tiver sabor morango e não for rosa, prejudica o processo sensorial, pois nosso cérebro associa essa cor a esse aroma. ou seja, nós comemos com os olhos, de fato. pra ter o moranguinho estampado na frente, é preciso que contenha uma porcentagem mínima de fruta, prevista em legislação para cada tipo de produto. em geral é uma quantidade realmente simbólica, que não faz diferença no produto final. isso tudo é porque não temos morango o ano todo ou em quantidade suficiente para abastecer o mundo de produtos à base de morango e também por questões de padronização dos produtos industriais, então não é interessante utilizar a fruta, pq pode variar muito o sabor, além de todos os outros fatores. por fim, acredito que seja importante falar sobre isso para que quem for consumir esteja consciente do que consome, mas também não se pode esperar da indústria algo realmente saudável, principalmente quando se trata de produtos acabados que, se fossem feitos artesanalmente, durariam muito menos do que aqueles vendidos no supermercado. São pensamentos que vão em contra mão, não da pra fazer o raciocínio “iogurte é saudável. olha, iogurte no supermercado!” e comprar. o iogurte de mercado é complicado bem menos pela falta de morangos do que pelo processo uht que o leite é submetido e do fato de muitos desses iogurtes nem poderem ser assim chamados, pois são na verdade uma bebida láctea com gomas, estabilizantes e conservantes que simulam um iogurte de verdade, que da muito mais trabalho produzir. enfim, fico feliz que o mundo esteja começando a andar na contra mão da comida por atacado :)

  Se, por um lado, temos uma legislação que exige um mínimo (bem mínimo) de frutas em iogurtes, também temos uma legislação que regulamenta a qualidade dessas bebidas. A Instrução Normativa n° 16 – MAPA (aqui) traz a tabela abaixo com limites máximos de acidulante, corante, estabilizante, emulsificante e conservador, ou seja, um monte de coisas que são adicionadas ao longo do processo industrial para “melhorar” o iogurte. Quanto aos corantes, a tabela traz o seguinte (a primeira coluna é um código de identificação, a segunda é o produto, e a terceira é a concentração máxima no produto final):
  O carmin de cochonila, aparentemente o corante mais frequente em iogurtes de morango e outros alimentos de cor avermelhada, é oriundo de um inseto, a própria cochonila. Embora seu uso não seja maléfico à saúde humana – há registros do uso deste corante desde de a antiguidade, pelos ameríndios, principalmente os astecas -, há aqui uma problemática ética: grupos de defesa animal julgam fútil a criação de quantidades exorbitantes de insetos para produção de corante. Para obter 450g de carmin, são necessários 70.000 indivíduos de cochonila (aqui).
  A partir do carmin de cochonila, comecei a procurar outros tipos de corantes presentes em alimentos e, para minha surpresa, descobri que medicamentos também possuem corante! É utilizada a mesma explicação da produção industrial de alimentos para uso de corantes em medicamentos infantis: estimular a percepção visual. Obviamente, a diversidade de corantes em medicamentos é maior do que em iogurtes de morango. O trabalho “Presença de corantes e lactose em medicamentos: avaliação de 181 produtos” (Stefani et al, 2009) (aqui) traz uma análise de medicamentos bem consumidos no Brasil quanto à presença de lactose e corantes.
  Aqui quero chamar a atenção para o corante chamado Eritrosina. Este corante está presente em analgésicos e anti-térmicos (Novalgina xarope e genérico de Dipirona Sódica em solução oral), antibióticos (genérico de Amoxixilina e Amoxil) e corticosteróides orais (Dexametasona). Os efeitos adversos a este corante já registrados em literatura são fotossensibilidade, eritrodermia, descamação, broncoespasmo e elevação dos níveis totais de hormônios tireoidianos. O estudo “Corantes Alimentícios Amaranto, Eritrosina B e Tartrazina, e seus possíveis Efeitos Maléficos à Saúde Humana” (Anastácio et al, 2016) (aqui) mostra que já há uma preocupação global sobre o uso de alguns corantes refletida nas publicações e pesquisas nesta área.

Ao fim dos experimentos, Chequer et al. comprovaram que a eritrosina B tem potencial genotóxico e mutagênico. Nas duas concentrações mais elevadas, o corante foi capaz de causar dano direto ao DNA celular, pelo Teste Cometa. Adicionalmente, efeitos mutagênicos foram observados em seis das sete concentrações testadas, após análise pelo CBMN-Cyt.

Exposição prévia do DNA a concentrações mais elevadas da eritrosina B, diminuem a efetividade do PCR, confirmando que algumas moléculas do DNA possam sofrer alterações durante sua exposição ao corante. 

  Por fim, o estudo “Avaliação da degradação e toxicidade dos corantes alimentícios Eritrosina e Carmim de Cochonilha através de processo fotoquímico” (Spellmeier e Stülp, 2009) (aqui) mostra que, após tratamento intenso por processo fotoquímico com UV, a eritrosina se torna altamente tóxica. Isso não é algo que nós, cidadãos comuns, devamos nos preocupar, já que, dentro de uma caixa, dificilmente um medicamento sofrerá degradação por UV, mas já é um indício de que este corante pode ser catabolizado em partes tóxicas. Não houve evidência de toxicidade do Carmin após o tratamento fotoquímico.

Uma castanheira no caminho

  Imagine uma cidade do interior da Bahia onde uma figura que é histórica e, ao mesmo tempo, símbolo ambiental corre perigo de ser derrubada. É o que acontece na cidade de Valença – BA (272km de Salvador): uma castanheira-do-Pará (Bertholletia excelsa) de aproximadamente 400 anos está plantada em um local de declive, no quintal de um cidadão. A árvore possui mais de 50 metros de altura, ainda produz frutos, mas a estrutura do tronco se encontra comprometida.

  Ninguém sabe ao certo como a árvore foi parar em Valença. A castanheira-do-Pará tem uma ocorrência entre o Maranhão, Guianas, Bolívia e leste do Peru. Como a castanheira tem, em média, 400 anos, foi trazida por volta de 1600. Acontece que Cairú só começou a ser povoada de fato por Portugueses por volta de 1608, e Valença ainda era um distrito subordinado a Cairu até o fim do Século XVIII. Como essa castanheira foi trazida será um mistério eterno pois não deve haver registro histórico dessa ação. Sabemos que esta é a única castanheira-do-Pará em área urbana no Nordeste, mas que, infelizmente, não pertence a este bioma.
Biomas Brasileiros. Fonte.
  A castanheira-do-Pará é nativa do bioma Amazonia, já Valença está inserida no bioma de Mata Atlântica – os dois biomas estão separados pela Caatinga e pelo Cerrado e, apesar de serem aparentemente semelhantes, possuem muitas peculiaridades quanto à suas biodiversidades. A introdução de espécies não nativas é um grande problema mundial: o transporte e o descarte de espécimes entre diferentes áreas do mundo (o Brasil possui uma dimensão continental, lembre-se disso) leva à instalação de espécies que não possuem competidores, predadores e que se sobrepõem a espécies nativas chegando a causar extinção de parte da diversidade local – essas espécies são chamadas BIOINVASORAS. A castaheira-do-Pará, nesse caso, não representa uma bioinvasão: ela simplesmente não está adequada ao seu habitat. Na Amazonia, a castanheira-do-Pará possui relações ecológicas com aves, insetos e mamíferos que polinizam suas flores e dispersam os seus frutos, e isso não ocorre em Valença, afinal, esta é a única castanheira-do-Pará em toda a área. O esforço de manter a árvore em pé seria manter “um estranho no ninho”, uma espécie que não pertence àquele espaço e que, apesar do seu fator histórico, não possui relações ecológicas com o ambiente ao seu redor.
  Outra questão de grande importância e que levantou debates na cidade é o perigo para os moradores. Os frutos da árvore, ao caírem de uma altura de 50m, quebram telhados de casas e podem causar acidentes graves. Além disso, o perigo de queda da árvore, seja por forte chuva, seja por raios ou seja pela fragilidade do seu tronco, pode abalar a estrutura de todas residências ao redor. Alguns moradores já não dormem nas suas casas por medo de desabamento.
Toda a parte central do tronco se encontra comprometida.
  Após todo o processo midiático e de ação ambientalista, a empresa Bioconsultoria Ambiental Ltda. emitiu um laudo favorável à derrubada da árvore (o relatório, diga-se de passagem, bem elaborado, pode ser acessado aqui). Ainda após o laudo, muitos cidadãos valencenses lutaram por uma segunda opinião, exigindo um segundo laudo, emitido por outra empresa e também por medidas alternativas ao corte da árvore:

O estudo que completará um ano, foi realizado em 27 de Julho e 28 de Agosto de 2015 pela empresa Bioconsultora Ambiental … e seguiu os critérios de “utilização da metodologia Tree Risk Assessment Qualification – TRAQ, desenvolvida pela Sociedade Internacional de Arboricultura – ISA (sigla em inglês), como um conjunto de técnicas que visam promover a segurança das pessoas e dos patrimônios públicos e privados, através de uma abordagem sistemática e padronizados de avaliação do risco de árvores.” (p. 4), que constatou o risco MODERADO de queda. (p.48)
Porém, como aponta o relatório, também na página 48, houve LIMITAÇÃO na avaliação da extensão do apodrecimento do cerne – anat.bot parte interna do tronco das árvores -, além de sugerir que “Para um melhor conhecimento da extensão da lesão verificada e maior clareza sobre a gravidade da mesma, é sugerida a vistoria na parte superior da árvore por arborista treinado em escalada de árvores, e a avaliação da lesão por tomógrafo sônico e tomógrafo de resistência elétrica, o que permitiria uma melhor compreensão da situação fitossanitária da árvore.”
Óbvio que essa recomendação não invalida o resultado do relatório, mas pode apontar uma saída sem que haja a derrubada da árvore! Conhecendo o estado fitossanitário da castanheira é possível encontrar métodos para tratar a parte do tronco afetada por fungos e umidade… é justamente por isso que brigamos e procuramos entender através de novo laudo.
Existem BRECHAS no laudo da castanheira (p.49) e se derrubarem sem as precauções prévias estarão cometendo um CRIME! É sugerido: “Poda dos galhos inferiores que se projetam para baixo em direção sudeste sobre as residências e que apresentam risco residual PEQUENO”; “Poda de limpeza e conformação visando equilibrar o peso e distribuição da copa, através da remoção de epífitas, cipós, trepadeiras, e galhos mortos ou de maiores dimensões, que apresenta risco residual MODERADO”. (p.49).

Portal “Combate Racismo Ambiental” por Jefferson Duarte Brandão. Fonte.
  Por fim, há poucas semanas, o Ministério Público decidiu definitivamente pela derrubada da castanheira-do-Pará (aqui):

Medidas prévias de resgate da fauna e da flora e para elaboração de um plano de arborização, como forma de compensação ambiental, serão promovidas pelo Município de Valença após assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) perante o Ministério Público estadual.  O TAC, de iniciativa da promotora de Justiça Lívia Sampaio Pereira, foi firmado na segunda-feira (25) após laudos técnicos terem comprovado o risco provável de queda de uma árvore, com alto impacto e severas consequências à população, inclusive, com possível perda de vidas humanas. O Município deverá promover o corte da castanha-do-pará nos próximos 15 dias.
No documento, o Município se compromete a plantar, pelo menos, 726 árvores de espécies nativas da Mata Atlântica e 10 castanheiras-do-pará.  Também foi definido que o Município deverá destinar socialmente os produtos da árvore, com concursos de trabalhos artísticos de madeira e memorial em praça homenageando a castanheira, considerando seu valor histórico, cultural e paisagístico. O descumprimento de quaisquer das obrigações assumidas implicará em multa para o Município. ​

  Bem, não entendo a motivação da plantação de 10 mudas de castanheiras-do-Pará, o que, ao meu ver, seria recorrer ao mesmo erro e arriscar a introdução de espécies não-nativas enquanto temos tantas espécies endêmicas em perigo de extinção. Por outro lado, é louvável a obrigação de plantar 726 árvores de espécies nativas de Mata Atlântica. O corte da árvore deverá ocorrer nesta semana e é um processo longo já que não se pode simplemente “tombar” uma árvore deste porte.
  Uma certeza é que a castanheira-do-Pará ficará como um marco histórico na cidade de Valença.

Jornal do Codema – CONSELHO MINUCIPAL DE DEFESA DO MEIO AMBIENTE DE VALENÇA – n.27

Jogo didático “CALANGOS”.

   O jogo “Calangos” (site oficial aqui) é uma produção coordenada pelos professores Charbel Niño El-Hani (UFBA), Angelo Conrado Loula (UEFS) e Leandro Nunes de Castro Silva (MACKENZIE/UNISANTOS). Trata-se um jogo que simula um indivíduo de calango em um ambiente de restinga. Os objetivos do jogador são controlar a fisiologia do animal, procurar presas e parceiros para reprodução em determinados períodos.

Chimpanzés jogando pedras

  Um artigo sobre comportamento de chimpanzés foi muito divulgado na mídia de popularização da Ciência no começo do ano. Trata-se de um estudo sobre comportamento de “empilhamento de pedras” realizado por alguns grupos de chimpanzés e, segundo muitas publicações de ampla circulação, se tratava de algo como “a origem da religião”.

  De fato, o artigo em questão menciona um rito de um grupo nativo africano localizado na região de Black Volta, em Bukina Faso, mas isso quase se passa despercebido diante do enredo do artigo. Não se faz qualquer menção a “primeiro Deus” ou “origem de religiões”… Mais na frente falaremos sobre esse aspecto do trabalho.
  A pesquisa foi desenvolvida por dois pesquisadores, Hjalmar S. Kühl (aqui) e Ammie K. Kalan (aqui), ambos do Departamento de Primatologia do Instituto Max Planck (aqui), da Alemanha. A publicação ainda conta com uma série de colaborações mencionadas como co-autores, isso porque o trabalho deve ter sido mesmo uma barra pesada e necessitou de vários operadores. Observe.
  O artigo “Chimpanzee accumulative stone throwing” (aqui) foi publicado em fevereiro/2016. É basicamente um estudo bem detalhado de um comportamento observado em grupos de chimpanzés no qual os animais lançam rochas em árvores – ou, em alguns casos, cavidades de árvores – e causam um acúmulo dessas rochas. O vídeo abaixo é uma série de registros realizados pelos pesquisadores.
  O trabalho foi realizado entre os anos de 2011 e 2015, foram 34 sítios de estudo (cada um teve monitoramento entre 14 e 17 meses), entre os quais apenas 4 apresentaram o comportamento analisado no artigo.
Imagem retirada do artigo “Chimpanzee accumulative stone
throwing

  A imagem acima, retirada do próprio artigo, mostra os pontos de estudo do projeto “Pan African Programme: The Cultured Chimpanzee” (sigla “PanAf”). Os pontos em branco com números são as localidades onde o comportamento de lançamento de rochas foi observado. Ou seja, observamos que há uma proximidade entre os grupos com registro do comportamento. Isso corrobora – e é corroborado – pela ideia de que comportamentos são características associadas a grupos e, assim, podemos supor que, dentro de uma árvore filogenética, haverá comportamentos que são caracterizados como sinapomorfias, aparecendo e desaparecendo, como uma característica morfológica qualquer. Assim, poderíamos supor que esses quatro grupos são mais aparentados. Claro, há interferências nessas ideias, como, por exemplo, se um grupo migrasse para um local muito distante dos outros e “instalasse” o comportamento em outra (meta-)população.

  Embora alguns pesquisadores alegassem que a transmissão de cultura fosse uma visão antropocêntrica do comportamento animal, atualmente, muitos estudos já provam que isso é bem provável como método de aprendizagem de novos hábitos (apesar desse termo não estar muito adequado…). O estudo “Culture in Chimpanzees” de A. Whiten et. al. (publicado na Nature em 1999) é um levantamento de variações de hábitos em diferentes grupos e mostrou como muitos se assemelham e, inclusive, em relação à distância entre as meta-populações.
  A análise do comportamento foi bastante detalhada e dados estatísticos foram publicados minuciosamente. Dividiu-se o ritual (não precisa levar para o sentido religioso!) em quatro fases: (1) Início caracterizado por pegar a pedra, (2) pant hoot, que é um processo específico de vocalização, (3) lançar a pedra que pode ser seguido por outras varações de comportamento (como bater na árvore, jogar diretamente na árvore ou jogar dentro de uma cavidade formada na árvore ou pelas raízes tabulares), e (4) finalização na qual o indivíduo pode também apresentar variações como exibir-se ou continuar a viagem. O diagrama abaixo mostra a linha de ocorrência dos comportamentos  quantas vezes foram observados.
Diagrama retirado do artigo “Chimpanzee accumulative stone throwing

  A respeito dos comportamentos observados, fontes secundárias colaboram na interpretação deles. Os processos de vocalização foram bem estudados por John C. Mitani et al no trabalho “Dialetics in Wild Chimpanzees?” (publicado em 1992 no American Journal ou Primatology). O diagrama abaixo mostra a divisão dos sons emitidos pelos chimpanzés (volte ao vídeo e tente identificar essas etapas!). Essas vocalizações podem ser interpretadas como sinais combativos.

Diagrama retirado do artigo “Dialetics in Wild Chimpanzees?
  Observe que pant hoot só foi observado em 50 indivíduos do grupo de 64: o artigo explica que houve um problema na gravação do áudio da câmera e 14 vídeos não registraram a sonorização.
  Além da vocalização, o bamboleio para frente e para trás e a apresentação de arrepios (piloereção) também são sinais combativos, mas também podem ser interpretados como processo de corte.
  Ainda foi feito um levantamento das densidades de rochas disponíveis e de árvores totais e com cavidades em cada localidade. Aparentemente não há uma seleção de local de acordo com a disponibilidade de recursos envolvidos no ritual (pedras e árvores). Acho que não dá também para inferir isso porque não é mencionado o método para seleção de local a ser filmado, pois se selecionaram árvores com cavidades, ou árvores que já apresentam acúmulo de rochas, não foram analisados os locais com árvores sem cavidades ou onde o acúmulo de rochas ainda não ocorreu.
  Como disse no início do texto, a grande repercussão deste trabalho se deu por os pesquisadores atrelarem o comportamento observado com a descrição de amontoamento de pedras em volta de árvores consideradas sagradas por um grupo de nativos africados de Black Volta (a descrição desse hábito está registrada em “Of Trees and Earth Shrines: an Interdisciplinary Approach to Settlement of Histories in the West African Savanna“, de Carola lentz e Hans-Jürgen Sturm, publicado em History in Africa em 2001). Importante mencionar que Black Volta não está tão distante dos locais de estudo do trabalho de Kühl e Kalan. O que me surpreende a respeito da repercussão deste artigo é que simplesmente o trecho que faz a relação entre os dois comportamentos é um parágrafo relativamente pequeno e que, deste parágrafo, se inferiu diversas informações como “origem das religiões” e “primeiro Deus”.
  O hábito de acumular pedras ou de utilizar pedras como marcadores são comuns, inclusive entre humanos. Nós marcamos santuários como Stonehenge, sinalizamos túmulos (com lápides ou Matzeivá de judeus), consideramos algumas como sagradas (como a pedra na Kaaba). Pense, por exemplo, que as pirâmides do Egito são amontoados de pedras que formam um santuário. Ainda usamos (ou usávamos) pedras como método de contagem e como moeda. Há poucos passos evolutivos entre nós e os chimpanzés, provavelmente três ou quatro gêneros.
  A nossa visão antropocêntrica é tão forte – e ainda subestimamos tanto outros animais – que nos surpreendemos com a inteligência deles. Observe, por exemplo, a notícia abaixo sobre um chimpanzé em cativeiro que acumulava pedras durante a noite para lançar contra expectadores que apareciam durante o dia. Ele ainda acumulava as pedras em um local da jaula que dava uma melhor mira para o arremesso. Ainda por cima, quando tiraram as rochas, ele retirou algumas “a força” do chão e moldou discos!
Acesse a notícia aqui.
  O nosso menosprezo pela cultura de outros animais nos levou a considerar a criação de uma ciência para estudar artefatos de nossos passados (a Arqueologia), mas não tínhamos pensado em estudar artefatos arqueológicos de outros primatas (até algum tempo, discutia-se se outros animais desenvolviam ferramentas). Foi então que surgiu em 2009 o campo da Arqueologia de Primatas, pesquisadores tentando fazer Ciência fora de abordagens (muito) antropocêntricas (para mais informações sobre esse campo, acesse aqui).

Atualizações sobre o Rio Doce: relatórios e GTs de estudo de impacto ambiental e outras novidades.

  Meses após o Desastre de Mariana, o andamento das questões jurídicas ainda é lento: nem mesmo a questão da interrupção dos vazamentos (aqui) foi resolvida, pois a Samarco entende que não há mais vazamentos (aqui), visto que há barreiras construídas para conter esses vazamentos remanescentes. As questões sociais andam em passos um pouco mais adiantados, porém, nada satisfatórios (aqui), ainda muito devido ao fato de não haver uma atividade alternativa para as populações que viviam do extrativismo animal na área, principalmente pescadores. Na intersecção do social e do ambiental, o abastecimento de água potável ainda é prejudicado em algumas localidades, mas apresenta melhoras graduais (aqui).
  A empresa tem aumentado o seu efetivo de trabalho e pretende retomar as atividades no final de 2016 (aqui). Compartilho a opinião de que reerguer a Samarco é importante no sentido desta empresa possuir saldo financeiro suficiente para realizar as atividades de mitigação de impactos ambiental e social causados pelo desastre. Acredito ainda que, com o episódio, seja possível uma nova fase na atividade de mineração.
  Os estudos de impactos ambientais, por outro lado, se apresentam muito mais adiantados. Diferente das ações de reparo social, essas ações não dependem unicamente da Samarco e da pressão de órgãos públicos. Há uma participações organizadas de pesquisadores e da própria população local que fazem levantamentos quase que diários dessas áreas e realizam atividades criativas de mitigação do impacto.
  A Marinha (MB) liberou recentemente um relatório (que estava sob sigilo por algum tempo) indicando impactos na foz do Rio Doce (aqui). Embora a mídia tenha feito um pequeno alarde sobre o fato das informações terem sido mantidas em sigilo, não há grande anormalidade nessa questão: a MB já havia noticiado que enviaria embarcações para auxiliar trabalhos de órgãos ambientais.

  Acontece que, devido à Lei de Acesso à Informação, esses dados não deveriam estar sob sigilo. Por isso a MB emitiu uma nova nota recentemente:

  Mas, de fato, não faz diferença se esses dados brutos estão ou não sob sigilo visto que já haviam sido liberados pelos órgãos ambientais nos seus relatórios.
  Diretamente quanto às novidades de impacto ambiental, a GIAIA (Grupo Independente para Avaliação do Impacto Ambiental) tem sido a maior responsável pela liberação de relatórios mais completos e melhor analisados sobre a evolução do caso (aqui). Além de toda transparência quanto aos materiais coletados, relatórios emitidos e gastos financeiros da organização, eles reúnem os relatórios próprios e de outros órgãos em uma página de livre e fácil acesso (aqui).
  O Pilula fez um vídeo no seu canal (abaixo) com um ótimo resumo desses relatórios.

 O principal impacto que Pilula aborda é a expansão da mancha causada pela lama. Os mapas de acompanhamento da evolução dessas manchas pode ser acompanhado aqui.